31 julho, 2014

ÓCIOS DO OFÍCIO

Eugene Richards | Série Blue Room


Para Galileu, a natureza é um livro escrito em linguagem matemática, cujos caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas. Galileu era um mecanicista, via a natureza como o relojoeiro vê o seu belo mecanismo, uma máquina bem oleada, bem calibrada, regular, previsível, tic-tac, tic-tac, tic-tac.
Mas se a própria natureza, apesar de sair da inteligência de Deus, tem os seus desvarios, os relógios, esses, saídos da imperfeita mão humana, estão longe da etérea e circular perfeição supra-lunar do cosmos aristotélico. Os relógios são máquinas, saídas de humanos relojoeiros, e se os primeiros carecem de manutenção, os segundos não dispensam dias de repouso, esquecimento, desvanecimento, exílio, de espaço sem aquele tempo onde o relógio costuma ser rei e senhor, tantas vezes dado a tiranias e despotismos vários. Os ponteiros, já de si parados, irão assim parar. O relógio ficará uns dias na oficina para depois os ponteiros voltarem ao seu habitual movimento para a frente, embora muitas vezes com o espírito do relógio do bar do Cais do Sodré do filme Dans la Ville Blanche, de Alain Tanner, cujos ponteiros giram ao contrário do que mandam as regras.
Boas férias.