06 julho, 2014

O SISO DO FILÓSOFO E O RISO DA ESCRAVA

Elliott Erwitt | NY, 1953

Esta notícia fez-me lembrar aquele célebre episódio entre Sólon e Tales de Mileto, que é contado por Plutarco na sua obra «Vidas Paralelas dos Homens Ilustres da Grécia e de Roma»Sólon desloca-se a Mileto para visitar Tales. No meio de muita conversa, o político exprime a sua surpresa por Tales não ter casado e tido filhos. Este, armado em sacana, resolve montar uma armadilha para mostrar ao outro que perdeu uma boa ocasião para estar calado. Passados uns dias manda chamar um estrangeiro que tinha vindo de Atenas, pedido-lhe para dar a entender, na presença de Sólon, que tinha morrido por lá o filho de uma pessoa muito importante, chegando-se entretanto à conclusão de que o filho só poderia ser o do grande político ateniense. Perante a evidência da desgraça, Sólon, desesperado e sem conseguir conter a dor, começou a bater na cabeça e a gritar. Tendo a armadilha resultado, Tales, sorrindo, agarra a mão de Sólon, explicando-lhe então o motivo óbvio por que nunca quis ter filhos.
Plutarco não é apenas um historiador ou biógrafo que se limita a relatar factos como observador distante. Ele conta o episódio mas apressa-se também a fazer moral, dizendo que não faz sentido renunciar a adquirir coisas necessárias como medo de as perder. Porquê? Porque, nesse caso, temos de renunciar a tudo o que é verdadeiramente importante: a riqueza, a glória, a sabedoria, a própria virtude pode ser perdida. E vai mais longe: os afectos são inerentes à alma humana e, por isso, amar é tão natural como sentir, pensar ou recordar. E na eventualidade de perdermos o objecto do nosso amor, a razão deverá intervir para apagar o fogo, sendo isso mais natural do que rejeitar o objecto.
Embora a actriz Cameron Dias deva estar mais próxima de uma escrava trácia do que do astrónomo e matemático de Mileto, tem em comum com este o facto de não desejar ter filhos. Os motivos de ambos são, à partida, radicalmente diferentes. Diríamos que Tales não deseja ter filhos por cultivar uma filosófica ataraxia, quer dizer, viver a vida de um modo imperturbável e sem inquietações. Já em relação à actriz tudo leva a crer que é motivada por propósitos hedonistas. A atenção que tem de prestar a um filho é incompatível com a atenção que faz questão de prestar às coisas que na vida lhe darão mais prazer.
Perante esta discrepância, seria muito fácil vir agora aqui fazer moral, ficando Tales, naturalmente, a ganhar. Como seria também fácil aproveitar estes dois casos para falar do culto pós-moderno do narcisismo, do individualismo, do hedonismo. Porém, as coisas não me parecem assim tão óbvias. Apesar das diferenças físicas ou intelectuais entre Tales e Cameron, apesar das gritantes diferenças entre o mundo e o tempo de Tales e o mundo e o tempo de Cameron, apesar das diferenças de ruído entre o discurso de Tales e o discurso de Cameron reveladas nos seus propósitos, há uma coisa que os liga: ambos querem preservar o seu ser, procurando ao máximo a sua autoconservação.
Em oposição a esta atitude fisiologicamente conservadora, temos o modelo judaico-cristão. O hífen, aqui, é importante. Se no Antigo Testamento Deus ordena que nos multipliquemos, no Evangelho Jesus pede que amemos todos aqueles que são um produto dessa multiplicação. Ora, trata-se de uma atitude fisiologicamente revolucionária. Viver não é cada ser estar virado para dentro, não é jogar à defesa mas expandir-se para outros. Não apenas o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, mas toda a natureza se expande para os outros. Desde as flores aos mamíferos, das aves aos peixes, passando pelos insectos. Como riria o Cole Porter, toda a natureza fode e fode precisamente para expandir a vida. Mas dirá Jesus que, no caso do ser humano, não chega foder para fazer filhos. Não basta expandir a vida. É preciso que cada ser humano se expanda através do amor, viver a sua vida através das vidas que ele próprio cria, cuidando delas, tirando de si para dar aos outros. Daí que fazer filhos revele não uma auto-conservação mas uma conservação dos outros, com tudo o que isso implica de auto-anulação, resignação, de perda e sacrifício do organismo que deixa assim de estar auto-centrado. Exactamente o contrário do que é desejado tanto por Tales de Mileto como por Cameron Diaz. E Plutarco, apesar de não ser cristão, acabou por andar lá perto ao criticar a posição de Tales, do mesmo modo que hoje iria criticar a posição de Cameron Diaz.