10 julho, 2014

O PARQUE

Heinrich Kühn, c. 1910

Victor, o pequeno selvagem de Truffaut, cresceu na floresta como um animal. Mas uma educação rígida e sistemática fê-lo superar a sua natureza adâmica, comendo as já descascadas maçãs desse pomar tão bem tratado e podado chamado civilização: aprende a andar calçado, a vestir-se, come de garfo e faca, cumpre as normas sociais, percebe a justiça e a injustiça. Para beber água, usa um copo em vez de andar a enfiar a cabeça em ribeiros ou charcos. Porém, sempre que em casa se prepara para matar a sede, dirige-se para a janela onde, de copo na mão, vai nostalgicamente observando a floresta que outrora foi a sua casa.
Lembro-me sempre disto quando entro num parque e o vejo cheio de pessoas deitadas sobre a erva como répteis indolentes, de pequenas criaturas humanas correndo como graciosos potros numa padraria, de mães que, como leoas protectoras, deitam os recém-nascidos sob uma árvore para serem afagados pela sua sombra secular. Tal como Victor através da sua janela, parece haver aqui a procura de um prazer marcado pela nostalgia de um paraíso perdido. Entramos nos parques como pessoas civilizadas e é enquanto pessoas civilizadas que lá repousamos entre dois telejornais e depois de uma semana de trabalho. Porém, seja pela frescura das árvores que não é a frescura do ar condicionado, seja pelo seu silêncio que não é o silêncio de um apartamento, seja pelo chilreio das árvores que não é a música que se ouve em casa, seja pelo seu cheiro primitivamente vegetal que não é o cheiro das mobílias, seja pela telúrica dureza do chão que não se compara  à dureza laboratorial de um colchão ortopédico, por muito civilizados que sejamos, nem que seja por breves instantes, quase conseguimos esquecê-lo.