07 julho, 2014

NOTAS DE RODAPÉ

Aaron Siskind, 1967

«Quando o amor acaba e as tatuagens ficam, entra o laser», eis o mote desta notícia. Pelos vistos, nesta febre das tatuagens amorosas prevalece o método, não do riso e do esquecimento, como lhe chamou o outro, mas do esquecimento e do riso.
Mais confuso e tortuoso, tanto estética como psicologicamente, foi o método seguido por David Foster Wallace, autor de A Piada Infinita. Um dia, resolveu tatuar no braço um coração com o nome da mulher por quem estava apaixonado. A relação, entretanto, acabou, apaixonando-se de seguida pela mulher com quem viria a casar. Embaraçado com os vestígios pictóricos no braço, resolveu tatuar um traço por cima do nome que lá estava por cima do coração acompanhado de um asterisco, tendo, mais abaixo, um outro asterisco seguido do nome da sua mulher. Motivo pelo qual alguém disse que o seu braço ficou transformado numa nota de rodapé viva.
Claro que não há qualquer relação entre este braço transformado em nota de rodapé viva e o facto de David Foster Wallace se ter suicidado. Mas não deixa de ser metaforicamente estimulante esta diferença entre o apagamento de tatuagens passadas ou, em alternativa, a sua reescrita, recorrendo a explicativas notas de rodapé. Atafulhar uma tese de doutoramento com notas de rodapé pode enriquecê-la cientificamente. Mais informação e análises suplementares irão provavelmente torná-la mais poderosa. No braço, porém, as notas de rodapé só servem para atrapalhar e deixar tudo numa enorme confusão. É bem melhor apagar o que foi feito para apagar e voltar a desenhar o braço com tinta nova, transformando-o num palimpsesto sempre fresco e renovado.