22 julho, 2014

ALMA ENCORPADA

Thomas Eakins | Estudo de Movimento, 1884 ou 1885

Entro no prédio depois de fazer a minha longa e esforçada caminhada matinal e, como é hábito, dirijo-me para o elevador. Chamo-o e, mal a porta se abre, penso na estupidez que é estar a sair de casa para fazer uma caminhada e subir depois pelo elevador. De imediato viro as costas e sigo pelas escadas. 
Mas que raio aconteceu na minha cabeça nesses centésimos de segundo? Não foi bem um pensamento. Foi um clarão, um turbilhão mental, e quem dera a mim ser um Proust, um James, um Musil, um Joyce (não falo em Virginia Woolf pois não me apetecia nada estar a mudar de sexo) para descrever esse lampejo de tempo que tão depressa veio como se escoou. 
Poderei dizer que foi uma decisão racional no sentido em que é legitimada racionalmente. Se eu saio de casa para fazer exercício, porque fazer exercício é saudável, se subir escadas constitui um exercício, ao contrário de subir num elevador, que não constitui exercício nenhum, logo faz todo o sentido subir pelas escadas em vez do elevador. Porém, sendo racional, não foi uma consequência de qualquer processo dedutivo, argumentativo, silogístico. Eu não precisei de montar um argumento, de me esforçar para juntar premissas de cujo encadeamento resultasse uma conclusão plausível que me convencesse a agir em função dela, neste caso, subir pelas escadas. Neste sentido, não posso dizer que foi uma decisão racional.
Talvez tenha sido uma descoberta. Sim, uma descoberta. Descobrir implica chegar a uma coisa que existe independentemente de nós. Ao contrário de um processo criativo ou artístico, que é interno, uma descoberta faz o sujeito sair para uma realidade que é exterior e que subiste independentemente de si. Isso acontece com Pedro Álvares Cabral ao descobrir o Brasil, acontece quando um cientista descobre que uma substância X tem um efeito Y no organismo. Mas também acontece com verdades puramente racionais. Por exemplo, ninguém inventou que 2+2=4. Trata-se de uma verdade válida em qualquer parte do universo ainda que a milhões de anos-luz e daqui a milhões de anos. Mesmo que a humanidade desapareça 2+2 continuarão a ser 4 e qualquer ser racional irá descobri-lo, tal como descobrirá sempre que "Nenhum solteiro é casado" ou que não há alternativa ao argumento "Estou em Torres Novas ou Riachos. Estou em Torres Novas, logo não estou em Riachos".
A verdade a que eu cheguei quando a porta do elevador abriu pode ter sido uma verdade desse género. Qualquer coisa assim:
1. Uma pessoa A quer fazer exercício.
2.  Subir escadas é fazer exercício.
3. Subir de elevador não é fazer exercício.
4. Logo, perante a possibilidade de a pessoa A subir pelas escadas ou de elevador, deverá optar pelas escadas.
E isto é tão válido no meu prédio, hoje, dia 22 de Julho de 2014 como daqui a milhões de anos num planeta distante onde haja seres racionais com pernas que queiram fazer exercício e elevadores para quem não queira ou não possa fazer exercício. 
Tudo isto me parece claro. Então, para quê toda esta lengalenga meio parva? Porque quero ir mais longe e mostrar que este caso se tratou de uma feliz coincidência entre uma decisão e uma ideia racionalmente consistente. Digamos que uma coincidência entre o plano da objectividade e o da subjectividade, em que eu decido o que objectivamente deve ser decidido. Mas não precisei de pensar, reflectir, argumentar. Foi, digamos, instintivamente que lá cheguei ou, para ser mais refinado, intuitivamente, quer dizer, apanhá-la sem qualquer tipo de mediação e de esforço.
Mas nem sempre assim acontece. Quantas vezes apresentar um bom argumento a alguém não leva essa pessoa a uma boa decisão? Nós podemos argumentar de um modo imaculado no sentido de tentar convencer alguém a não fumar ou a não andar a 120 km à hora numa estrada rural cheia de curvas e contra-curvas e mesmo assim não impedir uma má decisão. Porquê? Porque a pessoa não percebe o argumento? Ora, se não for indigente, não será esse o caso. Tal acontece porque apesar da clássica definição do homem como ser racional, pouca coisa se joga no plano da racionalidade. Pensando com Espinosa, talvez a chave esteja no corpo, no que pode o corpo, no poder do corpo sobre a mente. Ou, com Nietzsche, talvez faça sentido reduzir tudo o que no homem esteja relacionado com ideais, criação espiritual, princípios metafísicos, mecanismos racionais, planos argumentativos, a um subterrâneo plano orgânico e aos meandros da Vontade de Poder.
Eu não subi de elevador porque decidi. Foi o meu corpo que decidiu por mim. E o corpo também faz parte de mim. Neste caso, estou-lhe agradecido.