03 julho, 2014

ALL THAT VANITAS

Yasushiro Ogawa | On a Commuter Train, 2011

Dei comigo a fazer a um exercício mórbido, embora não tão mórbido como assistir aos jogos da selecção nacional ou acompanhar o fratricídio socialista. Dei comigo a pensar na música que gostaria de ouvir no momento da minha morte.
Mas rapidamente percebi o ridículo da situação. Porquê? Por causa do seu parvo narcisismo. Ok, não tão narcisista ao ponto de imaginar uma despedida assim estridente e apoteótica, encomendando coros, cordas, metais, percussões e o público da minha vida para celebrar com chave de ouro o solene momento da minha despedida, em vez de morrer, solitário e insignificante, numa anónima cama de hospital. Não, nada disso, só uma espécie de epitafiozinho sonoro, uma musiquinha íntima, coisa muito minha, pessoal, privada, discreta, até que o coração pare e os olhos e os ouvidos definitivamente se fechem. Uma coisa assim mais europeia, tipo filme francês, a preto e branco, com mar desfocado ao fundo e os uivos estúpidos das gaivotas a serem abafados pela música a crescer e a crescer cada vez mais.
O que vale é a velhice trazer, mais do que sabedoria, uma sageza que faz perceber cada vez melhor o real valor de tudo, que, em quase tudo, é nenhum. Nós podemos identificar-nos com certas músicas, adoptá-las e escolhê-las para o que bem entendermos. As belas músicas, porém, aquelas que nós dizemos serem as das nossas vidas, não foram feitas para nós e estarão sempre acima do pó que somos e ao qual fatalmente voltamos enquanto protagonistas secundários de um filme sem realizador.