20 julho, 2014

A CÓPIA ENQUANTO ESCRITA VERDADEIRAMENTE CRIATIVA


Conta João Ubaldo Ribeiro que quando o pai descobriu que ele não sabia usar o ponto e vírgula obrigou-o a copiar os sermões do Padre António Vieira. Ora aqui está uma boa sugestão para os pedagogos que passam anos das suas vidas a reflectir sobre a melhor maneira de educar as criancinhas. A ideia hoje em dia mais mais popular é a de que se deve estimular a criatividade e a autonomia, fazer de cada criancinha um autor, como se o mundo tivesse começado no momento em que a criancinha nasceu e fosse ela a descobri-lo. Vejo, todavia, mais virtudes na tirania pedagógica do pai Ribeiro. Longe de mim estar a pensar na metafísica questão levantada por Borges no seu Pierre Menard, autor do Quixote. Copiar Vieira não é ser Vieira, copiar um Sermão não é escrever um Sermão. A minha questão é bem mais chã, como tudo o que vem da pedagogia, e eu estou escrever sobre pedagogia, assunto do qual habitualmente fujo a sete pés, apesar de ser professor, ou talvez por ser professor, mas que de vez em quando me apetece acariciar embora sem ponta de lascívia.
Vamos lá ver o seguinte: alguém duvida de que Shakespeare é um dos 10 melhores escritores de todos os tempos? Vá, até dos 5. Ninguém. O homem era um génio? Era. Escreveu coisas sublimes, criou personagem únicas, montou histórias cujo valor humano não fica atrás das da Bíblia para futura memória da humanidade? Certo. Mas quem fez Shakespeare para além do dom natural com que nasceu? Talvez possamos começar por descobri-lo nas Metamorfoses, escritas por Ovídio muitos séculos antes.
No livro IV vamos encontrar a triste história de Píramo e Tisbe. Assolapadamente apaixonados, viram o seu amor ser contrariado pelas suas famílias. Resolveram assim fugir de suas casas, combinando encontrarem-se, pela calada da noite, debaixo de uma certa árvore. Ela chega primeiro e, enquanto espera, vê aproximar-se uma leoa com a boca ainda cheia de sangue por ter matado um animal. Assustada, foge para dentro de uma gruta, mas deixando cair o xaile que é depois apanhado pela leoa. Quando Píramo chega ao local vai dar com a leoa com o xaile manchado de sangue. Pensa que Tisbe morreu e mata-se. Quando esta regressa à árvore para contar ao amante a sua aventura, descobre-o já nas últimas e, desesperada, decide seguir o mesmo destino.
Uma pessoa levanta as orelhas e pensa, ó diabo, já vi isto em algum lado. Eu não faço ideia se Shakespeare leu Ovídio. Tudo leva a crer que sim. O homem teve uma esmerada educação a qual passaria naturalmente por um banho de clássicos. Claro que Shakespeare não copiou Ovídio tal como Ubaldo Ribeiro copiou o Padre António Vieira. Onde eu quero chegar é ao seguinte: ler um clássico representa aprender a ler com quem aprendeu a escrever muito antes de nós e que nos dá uma gramática mental, conceptual, cultural graças à qual nos podemos tornar mais livres quando puder finalmente chegar o momento de emergir o escritor que há numa pessoa que o possa vir a ser, em vez de torneiro-mecânico, vendedor de seguros ou manicura. Ler um clássico é muito mais do que ler um clássico, é aprender verdadeiramente a ler e a civilizar-se. Romeu e Julieta lembram Píramo e Tisbe mas não são Píramo e Tisbe, são personagens de Shakespeare e animicamente shakespearianas, e ler Shakespeare nada tem que ver com o ler Ovídio. Mas nada tendo que ver com Ovídio, tudo tem que ver com Ovídio. João Ubaldo Ribeiro nada tem que ver com o Padre António Vieira mas tê-lo copiado ou lido os clássicos ter-lhe-á dado um bom empurrão. Copiar um grande clássico como ele fez em criança, não é uma tarefa mecânica, bovina, passiva, indolente. Copiar um grande clássico é apropriar-se dele, comê-lo para depois o digerir ou, dizendo-o de um modo mais elegante, como diria S. Bernardo de Claraval, ah, outro clássico, é como um anão aprender a saltar para os ombros de um gigante para depois poder ver ainda mais longe do que este.
Uma criança que copia os sermões do Padre António Vieira não entende o que lê. Mas o que percebem os bebés quando ouvem à sua volta as pessoas a falar? Nada. E quanto mais qualidade tiver o que ouvem enquanto crescem, melhor pode vir a ser o que irão um dia dizer. Os pedagogos que se deixem de merdas e ponham as crianças a copiar como um zeloso monge copista no seu scriptorium. A criatividade dá muito trabalho e grande parte da que vejo à minha volta é de fugir. Sinal dos tempos, como diria outro clássico.