12 junho, 2014

UM CHÁ NO DESERTO


Admitamos que tem a sua piada imaginar Samuel Beckett e o ayatollah Khomeini, em Paris, onde ambos viveram, a tomarem regularmente chá um com o outro (li algures que Beckett lhe deu lições de francês mas não consigo confirmar). O absurdo, o desconforto de existir, a ausência de sentido, fazem parte da imagem de marca de Samuel Beckett. O iraniano não podia ser mais diferente: arquitecto do fundamentalismo islâmico e instigador do fanatismo religioso, homem de fé e de certezas absolutas imunes a quaisquer tipo de rajadas críticas, inimigo da liberdade individual ou de modos espontâneos de existir. 
Concentremo-nos no segundo: como explicar que depois de viver numa sociedade aberta e pluralista, marcada pela liberdade individual e multiplicidade de experiências de vida, acabe os seus dias a conduzir uma revolução fundamentalista, inspirando o fanatismo e uma obscura irracionalidade religiosa? E a resposta: precisamente por isso. Porque numa sociedade aberta e livre não existem certezas absolutas, verdades definitivas, confortáveis dogmas aos quais nos encostamos como almofadas. São areias demasiado movediças para quem persegue um fundamento sólido e rochoso, o qual, ainda que ameaçado pelo martelo da dúvida e da indagação crítica, se mantém intacto e indiferente na sua mineral rigidez.
Não foi por acaso que imaginei estes chás entre os dois. Soube que Mehdi Nemmouche, o rapaz que atacou há dias o museu judaico de Bruxelas, teve um passado de deliquência e uma vida familiar sem eira nem beira. Este caso, entretanto, lembrou-me o de Muriel Degauque, a loira rapariga belga que  foi a primeira suicida bombista europeia, fazendo-se explodir numa berma de estrada, perto de Bagdad, à passagem de uma patrulha militar americana. Nasceu Muriel mas  morreu Myriam. Como passou Muriel de rapariga tipicamente ocidental a uma muçulmana chamada Myriam? Muriel viveu uma adolescência rebelde, com drogas, álcool e pouco criteriosa sexualmente. Não chegou a terminar o liceu e foi despedida de um emprego por roubar. Casa com um turco, do qual depois se divorcia e, nesse período, converte-se ao Islão. Casa-se novamente com um belga de origem marroquina. Passado um tempo, passa a andar de burqa e com luvas, deixando apenas os olhos visíveis.
Vamos imaginar que no meu chá imaginário Beckett era mesmo beckettiano e que Khomeini fazia muito bem dele próprio. Teriam naturalmente muito que conversar. Qual o sentido da vida? O que é ser livre? É possível a felicidade? O que devo fazer? Existe um Deus que dê fundamento e sentido à nossa existência? Qual seria, entretanto, a posição dos nossos jovens fundamentalistas se tivessem assistido às conversas entre os dois? Vou aproveitar os dois nomes da jovem belga para arriscar uma resposta: enquanto Muriel, concordaria com a visão de Beckett, Myriam concordaria com a posição de Khomeini. E o mesmo se passaria com Nemmouche. O seu passado seria beckettiano mas o seu presente e futuro seriam salvos pela fé fundamentalista do iraniano.
Porque é precisamente Beckett quem justifica Khomeini. Khomeini é Kohmeini por causa de Beckett, do mesmo modo que Myriam só é Myriam por causa de Murielle. Qual a melhor resposta perante o medo do absurdo e o desconforto da liberdade? O fundo rijo do fundamentalismo. Poder espreitar para dentro do copo e ver um fundo que nos deixa dormir na mais profunda e segura inconsciência após anos de tormentosas insónias. Todavia, ao fim ao cabo, é Beckett quem ganha. Quando Murielle se faz explodir perto de Bagdad, ou quando Nemmouche sonha com todas as virgens que tem no céu à sua espera, depois de se converterem ao fundamentalismo de Khomeini, ambos assumem o seu destino enquanto personagens saídas de Beckett.