25 junho, 2014

RELER

André Kertész | Série On Reading

Todos os dias são editados livros que nunca li. Muitos deles, bons, muito bons ou excelentes, que merecem ser lidos e que enriquecem quem os lê. Livros novos mas também clássicos que não cheguei a ler mas que poderia ter lido como aqueles que li mas podia nunca ter lido. 
A mim, porém, anda a dar-me mais para reler do que para ler. Estava a passar a roupa a ferro e a pensar nesta necessidade de voltar atrás e sensação estúpida de estar a chover no molhado. Creio que tenho a resposta. Ler é um jogo entre mim e o mundo. Reler é jogar comigo próprio. Ler significa entregar-me ao mundo através do livro. Reler significa usar o livro que li e com o qual me entreguei ao mundo para agora me entregar a mim próprio. Ler já não serve para usar os livros para me enriquecer com os bens do mundo mas usar-me para me enriquecer ainda mais. Talvez por isso reler seja tão habitual na velhice. Porque o mundo vai continuar a ser um infinito jogo de possíveis do qual, por muito e muito que se leia, conhecemos apenas uma ínfima parte, entre o que foi, o que é e o que virá a ser. Por isso, por muito livros que leiamos, seremos sempre ignorantes, a nossa sabedoria será sempre demasiado pobre face ao esmagador poder de um mundo que nunca é igual a si mesmo. Na velhice, estamos quase a fechar o círculo fatal da nossa finitude e o que haverá para saber é só mesmo o que há para saber. Como diria o Sancho Pança na sua incontinência proverbial, mais vale um mundo que é só nosso na mão, do que um mundo, do qual tivemos apenas uma ínfima parte, a voar.