18 junho, 2014

O MUNDO É UM PALCO

Garry Winogrand | Centennial Ball, Metropolitan Museum of Art, NY, 1969

O que disse aqui a respeito da captação fotográfica de pessoas nas suas vidas normais nada tem que ver com uma platónica rejeição do mais sensível do mundo sensível: a sua quotidiana banalidade. Tão sensível que, na sua ostensiva visibilidade, tende, paradoxalmente, para a invisibilidade, fazendo com que não vejamos o que está mesmo à frente dos nossos olhos. Não rejeito o sensível mas rejeito essa versão do sensível. Três razões: moral, intelectual, estética ou artística. A primeira, porque nos leva a ver quem não quer ser visto. A segunda, porque nada acrescenta de relevante ao nosso conhecimento do mundo nem serve o pensamento. A terceira, porque o seu "olho clínico" e sentido estético são nulos.
Porém, existem grandes fotógrafos da banalidade quotidiana cujos trabalhos não podem ser confundidos com esse tipo de fotografia. Vejamos o caso de Garry Winogrand, apenas um exemplo entre dezenas. Dizia ele «When things move, I get interested». A frase, dita por um caçador de paisagens humanas como ele era, faz todo o sentido. Não implica, todavia que tudo o que mexa suscite interesse e seja passível de ser fotografado.
Nós olhamos para uma fotografia de um jogador croata nu junto a uma piscina, para Diana Spencer sentada na borda de um barco ou para Angelina Jolie a passear com os filhos no parque de uma cidade e isso é vida em movimento. Pessoas que agem, pessoas que fazem coisas. Mas o que há nestas acções que justifique vê-las? Nada. Nem sequer fazemos de Peeping Tom vendo Lady Godiva a atravessar a cidade de cavalo. Ele não devia tê-la visto mas percebe-se a tentação de não resistir à Graça da nudez feminina esparramada diante dos seus olhos. Neste caso, somos atraídos por um movimento sem significado que dá origem a um uso vazio e intransitivo da visão. Não vemos para nada, vemos apenas para ver e para satisfazer uma insaciável visão que se alimenta de nada.
Mas ao olharmos para as fotografias de Winogrand já vemos outra coisa. Um fotógrafo que capta a realidade "como ela é", não é um coreógrafo ou um encenador. Os movimentos (things movings), são naturais e espontâneos, emergem generosamente da própria realidade. Mas o "olho clínico" do fotógrafo está precisamente em desvelar as coreografias e encenações criadas na realidade, as situações humanas que, apesar de espontâneas, poderiam ser organizadas previamente pelo seu mentor. Dramas, comédias, jogos psicológicos, seres humanos transformados em personagens de ficção.
Estamos muito longe de uma esteticização da fotografia. Não é o belo nem qualquer tipo de riqueza formal o que se procura aqui. Pode não ser, por isso, do agrado de todos e percebo que não o seja. Mas não deixa de ser um dos caminhos, e dos mais nobres, da história da fotografia.