16 junho, 2014

O CONFORTO COMO CATEGORIA ÉTICO-POLÍTICA

Nathan Strauss | Retrato de Jacobina Staerk Stieffel, ca 1915 (autocromo)

Eu gosto do conceito ético-político de decência. Não promete o que não pode dar, não sendo por isso ingénuo e irrealista, evitando as ardilosas consequências de partir ovos e mais ovos para uma enorme omeleta invisível, seja de esquerda ou de direita. É humilde, sim, mas suficientemente versátil para permitir confeccionar uma saborosa refeição que, não sendo um grande banquete, também não serve apenas para matar a fome.
Ainda assim é um conceito demasiado sociológico para o meu gosto. E eu, no fundo, sou um romântico que não se satisfaz apenas com quadros e gráficos relativos ao IDH, saúde, educação, esperança média de vida, óbitos, nascimentos ou idas a museus por ano. Por isso, sem desfazer o conceito de decência, apresento, não como alternativa mas complemento, o mais psicológico conceito de conforto.
Pensei nele quando estava sentado no sofá da sala a ler o livro III da República, obra na qual não creio que surja, tanto o conceito de decência como o de conforto. Estou no sofá, sentindo a sua ergonómica harmonia  e penso na arte de quem o concebeu e moldou para benefício de quem nele se haveria de sentar. E desvio-me da leitura para me concentrar na sensação física de bem-estar proporcionada por aquele sofá. Sensação física e ao mesmo tempo psicológica. Física, porque tem que ver com o corpo, como mergulhar na água tépida de uma piscina, comer chocolate ou sentir o cheiro da erva húmida numa manhã de Verão, mas também psicológica porque a sensação é vivida e assumida na consciência que temos dela. Talvez seja isso que sente o macaquinho de Harlow quando prefere a macaca de veludo à macaca de arame, mesmo que seja nesta que se encontra a comida. O macaco prefere a macaca de veludo porque é com ela que se sente confortável e seguro, não se deixando iludir com a comida apresentada pela outra.
Como deverão as pessoas sentir-se perante o Estado no qual vivem como cidadãos e não meros indivíduos num estado de natureza anterior a qualquer ordem política? Não certamente como perante uma mãe protectora que lhes faz as vontadinhas todas, que os protege e mima em demasiado, fazendo delas eternas criancinhas mal acostumadas. As pessoas têm de crescer e assumir as responsabilidades, devendo contar não apenas com direitos mas também com deveres. Já que estou numa de metáforas maternais, talvez se devam sentir perante um Estado continente-conteúdo. Um Estado que, tal como uma boa mãe em relação ao bebé, transforme o medo e a angústia em segurança, o desconforto em bem-estar, um Estado que não revele mórbida condescendência quando, mesmo quando os ajuda, faz os cidadãos sentirem-se a mais, empecilhos, peças inúteis de uma engrenagem que os dispensa, mas que os trate como fins em si mesmos e merecedores de respeito moral.
A língua japonesa possui uma palavra, amae, que traduz o bem-estar e alegria que sentimos quando percebemos ser aceites pelos outros, apreciados, desejados. Enfim, um sentimento de pertença que concilie numa unidade dialéctica, como pretendia Hegel, o todo e as partes. O ideograma original representa um seio de mulher com um bebé a mamar. Amae é o que todos aqueles que se sentem pessoas de bem deveriam sentir sempre que o Estado pensa nelas, se lembra delas ou quando elas pensam ou se lembram do Estado. Vivendo e envelhecendo, confortavelmente, numa sociedade decente tal como eu no meu sofá quando nele me sento para ler, sentindo uma matinal brisa fresca a entrar pela porta da varanda. Sou mesmo romântico, caraças.