17 junho, 2014

O BURACO

André Kertész, 1929

O que me chamou a atenção nesta notícia não foi o facto de os jogadores andarem nus numa piscina. Estar nu na piscina privada de um hotel não é notícia mas apenas estar nu na piscina privada de um hotel. Nem chama a atenção haver paparazzi que se escondem atrás de arbustos para fotografar jogadores que andam nus em piscinas para depois revelar à humanidade. O valor da notícia está na palavra "apanhados" do título.
Num mundo normal, uma pessoa é apanhada quando a sua acção oculta se depara com uma acção oposta que a impede de continuar oculta. Por exemplo, uma criança roubou um chocolate no supermercado e foi apanhada, um tipo que foi apanhado a mentir, uma mulher que envenenou alguém e foi apanhada. Significa isto que só existe o movimento oposto se a pessoa que foi apanhada for considerada um agente que deu início à acção que permitiu  a acção contrária à sua. Se a criança não roubasse não seria apanhada a roubar. Se o tipo não mentisse não seria apanhado a mentir, e a mulher  não seria apanhada se em vez de andar a envenenar pessoas estivesse sossegadinha em casa a ver a telenovela.
Estes jogadores, porém, não estavam a roubar, a mentir ou a envenenar árbitros japoneses. Nada de oculto que justificasse um movimento contrário. Não confundir estar resguardado na sua vida privada com praticar acções que é imperioso ocultar. Eu digo assim:" DISPO-ME TODAS AS NOITES NO QUARTO ANTES DE ME DEITAR". Como facilmente se percebe não pretendo ocultar este acto, não me importo que a humanidade saiba que me dispo no quarto todas as noites. Isso não significa, porém, que gostasse de ser visto todas as noites a despir-me no quarto pelas pessoas que moram no prédio em frente. Mas se for o caso de ser eu a espreitar para o prédio em frente para ver todas as noites uma mulher a despir-se, aí, sim, para além de querer continuar resguardado, faço também questão de ocultar a minha acção e fazer tudo para não ser apanhado.
Os jogadores croatas estavam na sua vida normal, neste caso, a descontrair no hotel onde estão alojados entre dois jogos do Mundial, qualquer coisa que certamente não farão questão de ocultar uma vez que não se trata de uma acção criminosa ou merecedora de vergonha. Mas foram, paradoxalmente, apanhados. Porquê? Porque aprendemos a viver cada vez mais na invisibilidade do visível, nos buracos da realidade. Como se olhássemos para uma pintura ou uma fotografia que foi danificada pelo tiro de uma bala e em vez de procurarmos o que nelas existe efectivamente para ver, estivéssemos apenas concentrados no vazio do buraco enquanto negação do quadro.
Atafulhamo-nos diariamente com cada vez mais imagens, informações, dados da realidade, que nos dão a ver e a conhecer, mas a ver e a conhecer o nada. Um mundo em que estamos todos em rede e em que sabemos cada vez mais coisas uns dos outros, mesmo que se trate de pessoas sobre as quais nada há para saber, como é o caso destes jogadores croatas cujos nomes nem sabemos. Num mundo assim basta existir para ser apanhado, basta estar para ser apanhado, basta ser para ser apanhado. Num mundo assim, para além de sermos todos potencialmente apanhados, acabamos por ficar mesmo apanhados das nossas cabeças.