27 junho, 2014

MENTES TAPADAS

Sean Kernan | Prisioneiro na Solitária, 1979

Foi o próprio Isaiah Berlin a admitir, no seu melhor estilo nonchalant, que a sua célebre distinção entre ouriços e raposas não era para ser levada muito a sério. Ainda assim, trata-se de uma distinção com algum interesse, daí ele se ter dado ao trabalho de escrever um longo e importante ensaio sobre Tolstoi, precisamente chamado O Ouriço e a Raposa.
Pronto, para quem não sabe, tal distinção é inspirada no seguinte verso de Arquíloco: «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante». Não parece grande coisa mas bastou ao professor de Oxford para distinguir dois tipos de personalidade. Por um lado, os ouriços, que tudo explicam a partir de uma ideia central à qual se agarram com unhas e dentes. Por outro, as raposas, que, não possuindo essa ideia central, tentam compreender o mundo a partir da sua diversidade e suas diferentes finalidades.
Diz ele que Tolstoi era uma raposa mas uma raposa que queria ser ouriço. Bem, não interessa agora explicar porquê. Eu só fui buscar isto para lembrar que todos nós, mais coisa menos coisa, somos ouriços ou desejamos sê-lo, que é como ouriços que opinamos, que é como ouriços que vivemos, que é como ouriços que enfrentemos o mundo, por muito que gostemos de dizer o contrário. Porque, tal como na vida, também no campo das ideias e das ideologias é bem mais fácil ser sedentário do que nómada, por muito que enalteçamos o espírito crítico, o pensamento livre, o debate de ideias e de projectos de vida. E tal como a vadiagem propriamente, também a vadiagem intelectual não é habitualmente vista com bons olhos.
No Avarento, Molière brinda-nos com uma passagem onde, a brincar a brincar, encontramos o espírito do ouriço no seu esplendor. Rapidamente: Elisa está apaixonada por um jovem mas o pai, o avarento Harpagão, pretende casá-la com um velho rico. Valério tenta demover Harpagão do seu objectivo e vamos dar então com esta conversa:

Harpagão - Pretendo casá-la, esta noite mesmo, com um homem tão rico como ajuizado e a toleirona atira-me à cara que não o aceitará Que dizes a isto?

Valério - O que digo?

Harpagão - Sim, que dizes?

Valério -Bem! Bem!

Harpagão - O quê?

Valério - Digo que, no fundo, sou de vossa opinião, pois tendes sempre razão. Mas, ao mesmo tempo, ela também tem razão e...

Harpagão - Como? O senhor Anselmo é um excelente partido. É um fidalgo, terno, ponderado, ajuizado e muito rico e que não tem já nenhum filho do primeiro casamento. Poderia ela encontrar melhor?

Valério - Isso é verdade. Mas talvez ela queira dizer que vos precipitais e que precisa de um certo tempo para ver se os seus sentimentos estarão de acordo com...

Harpagão - É uma oportunidade que temos de agarrar pelos cabelos, pois não pode voltar a aparecer um bom partido como este, tanto mais que a aceita em casamento sem dote.

Valério - Sem dote?

Harpagão - Sim.

Valério - Ah, então já não digo nada mais nada. Eis uma razão perfeitamente convincente, temos de nos render.

Harpagão - É para mim, uma grande economia!

Valério - Evidentemente; nada há a refutar. É verdade que vossa filha pode argumentar que o matrimónio é um acto muito importante: que se pode ser feliz ou infeliz toda a vida e que uma união que deve durar até à morte não se pode assumir levianamente.

Harpagão - Sem dote!

Valério -  Com certeza; eis o que resolve tudo, sem dúvida. Haverá talvez quem vos diga que sobre este assunto se devem respeitar as inclinações duma filha, e que a diferença de idades, de temperamento e de sentimentos pode fazer perigar o matrimónio...

Harpagão - Sem dote!

Valério -Ah! Perante isso, já não posso argumentar mais, é claro! Quem diabo o poderá negar? O que não impede que não haja uma quantidade de pais que preferissem a felicidade das filhas aos seus próprios proveitos; que não as sacrificariam ao seu interesse e procurariam, acima de tudo, casá-las de forma a assegurar uma doce paz, que é a base da honra, da tranquilidade, da alegria e que...

Harpagão - Sem dote!

Valério - É verdade. Isso tapa-nos a boca: sem dote. Como resistir a uma razão tão forte como essa?

Por muito boas e variadas que sejam as razões de Valério para pôr em causa o casamento de Elisa, a visão de Harpagão consegue anulá-las. Harpagão enfrenta o mundo com uma ideia central da qual irão depender todas as suas interpretações, crenças, desejos, motivações. A ideia de "dote" é por isso uma espécie de eucalipto mental que seca tudo à sua volta. Ora, o "dote" de Harpagão não é outra coisa senão o que move mentalmente grande parte dos ouriços que nós somos, tornando qualquer tipo de discussão ou debate um diálogo de surdos.
Valério assume logo dois tipos de razão. A razão de Harpagão que ele, obviamente, não questiona porque infalível, dogmática, solipsista, fechada sobre si própria. Apresenta, depois, um conjunto de razões que surgem a partir de uma relação espontânea com a realidade, livre de preconceitos e de estruturas pré-formatadas.
Quem não conhece a peça certamente que vai admirar a racionalidade, sensatez, sabedoria e liberdade crítica de Valério face à casmurrice insane de Harpagão. Só que, mesmo num contexto argumentativo não há almoços grátis. Eu não disse, mas digo agora que Valério é o jovem por quem Elisa está apaixonado e com a qual ele deseja casar.
Não é só o dote que tapa a boca. E quem diz a boca, diz a mente. Valério não deseja o que diz por lhe parecer bom. Ele considera que é bom porque é isso que deseja, é essa a sua grande ideia que ele pretende cumprir. No mundo da argumentação estamos encerrados em nós próprios e a única realidade que conseguimos ver é a nossa.