13 junho, 2014

LOUIS JEAN FRANÇOIS LAGRENÉE | MARTE & VÉNUS, ALEGORIA DA PAZ [1770]


Nunca na vida me passou pela cabeça ser carpinteiro, cabeleireiro, gestor de empresas, cozinheiro, agente de seguros, dentista, piloto de automóveis ou engenheiro de minas. Não passou, mas compreendo que passe pela cabeça de muita gente pela qual nunca passou sequer a vã possibilidade de ser professor de filosofia. Consigo fazer facilmente esse exercício. Detestaria ser agente imobiliário mas entendo a possibilidade de haver quem goste de o ser.
O que eu já não consigo perceber é o desejo de seguir uma carreira militar mas não desejar combater para fazer aquilo para que se é propenso. Um carpinteiro quis ser carpinteiro porque quer trabalhar a madeira. Um cabeleireiro quis ser cabeleireiro porque quer cortar e compor cabelos. Um gestor de empresas quis ser gestor de empresas porque quer gerir empresas. Não faz qualquer sentido uma pessoa dizer "Eu desejo ser carpinteiro mas não desejo trabalhar a madeira" ou "Adoro a ideia de ser cabeleireiro mas nem me passa pela cabeça tocar em cabelos".
Pergunto agora o que faz uma pessoa querer ser militar em vez de carpinteiro ou cabeleireiro. Para responder temos de pensar na essência de ser militar tal como pensamos na essência de ser carpinteiro ou cabeleireiro. A arte militar é a arte da guerra, a arte de atacar e defender num contexto bélico (diferente de atacar ou defender quando se assalta um banco). Ser militar é estar preparado para a guerra, num nível hierárquico inferior, manusear instrumentos de guerra para matar ou evitar ser morto, num plano superior, como um treinador de futebol, elaborar, organizar e aplicar a estratégia adequada para vencer no campo de batalha.
Ora bem, um carpinteiro ou um cabeleireiro não têm de estar sempre a trabalhar a madeira ou os cabelos para o serem. Também comem, dormem, passeiam, vêem televisão, vão à praia, ao café e sei lá mais o quê. Mas façam lá o que fizerem, enquanto carpinteiro ou cabeleireiro, a sua essência consiste em trabalhar a madeira ou os cabelos. Também um militar não tem de querer estar sempre aos tiros para o ser, porém, desejar a possibilidade de não o fazer implica o desejo de não ser o que se é.
Embora por motivos diferentes, como irei explicar, a minha dificuldade com o militar que não é militar não está longe da minha perplexidade perante esta visão alegórica da relação entre Marte e Vénus. Eu entendo perfeitamente a versão de Botticelli. Neste caso é Marte quem dorme perante o olhar sereno de Vénus, enquanto a natureza irradia alegria e felicidade graças à inconsciência do primeiro. Pacífico. E do mesmo modo que um militar não precisa de estar sempre a combater para o ser, também Marte não tem de estar sempre acordado a fazer das suas.
Só que, neste caso, perante a visão de uma Vénus que dorme serena, vemos o próprio Marte a cair nas garras do amor.  Marte não está a dormir inconsciente, Marte está apaixonado. E o impacto é de tal modo forte que o seu bélico elmo perde a sua função protectora para ser transformado num lindo e pueril ninho por duas pombas brancas. O que se pretende mostrar com esta alegoria? Que a força magnética do amor pode contrariar, inibir a força destruidora de Marte? Só que, ao contrário do nosso militar que não deseja a guerra, Marte jamais desejará deixar de ser quem é. O pintor francês, ingénuo, parece não compreender o que muito bem compreendeu Empédocles: que tudo se mistura ou separa em função do Amor e da Discórdia. Forças que não são apenas opostas mas, mais do que isso, correlativas.
Marte pode adormecer e esquecer-se do mundo. Pode, como foi o caso, ter uma relação com Vénus. Mas não devemos embandeirar em arco, não romancear em demasia os seus movimentos sexuais na direcção de Vénus, deixando o seu elmo entregue às pombas. Marte não pode olhar languidamente para Vénus e deixar de ser ele próprio, um Marte apaixonado que, por isso, deixa de ser Marte, para passar a ser um comum mortal com coração de manteiga. O militar não deixa de ser militar por estar a fazer amor mas ao fazer amor não está a ser militar mas um homem que também podia ser carpinteiro ou cabeleireiro. O carpinteiro e o militar anulam provisoriamente essa sua identidade quando estão no café ou na praia ou a fazer amor, acidentes que lhes conferem novas identidades e sentidos. No caso de Marte, porém, porque se trata de um deus, não há qualquer separação entre a substância e os acidentes, entre o que é e que pode estar ou não estar a fazer ocasionalmente. Tal como a Discórdia de Empédocles, Marte é sempre igual a si próprio e irredutível ao poder do seu oposto. Os opostos tocam-se, sim, mas não se diluem.
Se o objectivo é mostrar que o Amor tudo vence, trata-se de um objectivo falhado. Se estamos em terreno alegórico, os símbolos e arquétipos têm de ser levados muito a sério. E Marte, nem nos braços de Vénus pode deixar o mundo em paz, pois basta a sua existência para que a sua ausência do mundo por estar nos braços dela, não signifique, ao contrário de um soldado que não quer ir para a guerra, uma perda da sua identidade.