11 junho, 2014

JARDIM SEM ÉDEN

Quentin Massys | o Cambista e a sua Mulher, 1514

No livro que escreveu sobre o banqueiro Jardim Gonçalves, Luís Osório considera-o um homem "contraditório e paradoxal". Enquanto fervoroso cristão e fervoroso capitalista, oferecido aos desígnios celestes e ao mesmo tempo preso às perversas amarras do poder temporal, a figura não me interessa particularmente. Apenas um homem perdido na imensidão histórica que, não calhando ser um Alexandre, um S. Paulo, um Carlos Magno, um Leonardo, um Napoleão ou um Marx, vale o que vale: nada. Daí não passar de uma insignificante figura de um insignificante país, vivendo numa insignificante nesga de tempo, e que brevemente irá ficar registado no mais volumoso de todos os livros, obscuramente perdido no recanto mais obscuro na mais obscura de todas as bibliotecas: o livro do esquecimento.
O que me interessa, sim, é a cultural ocidental, a "Europa" enquanto ideia e desígnio e a sua milenar identidade. Direi assim que o contraditório e paradoxal Jardim Gonçalves é apenas um peão em cima de um tabuleiro contraditório e paradoxal. No Dom Casmurro, de Machado de Assis, quando Santiago se encontra ainda no seminário, o seu melhor amigo confessa-lhe em segredo que não pretende chegar ao fim e tornar-se padre:

- Meu desejo é o comércio, mas não  diga nada, absolutamente nada; fica só entre nós. E não é que eu não seja religioso; sou religioso, mas o comércio é a minha paixão.

Se a cultura ocidental tivesse agora um AVC e morresse, este bem poderia ser o seu epitáfio: "Religiosa, mas o comércio foi a sua paixão". O cristianismo foi a grande ideologia do Ocidente, o fio de Ariadne que nos unificou nessa grande Babel de senhores feudais que falavam línguas diferentes. Escobar, o jovem amigo de Santiago, vive um conflito interior porque é uma pessoa e as pessoas têm consciência. Daí sentir na pele o peso de uma cisão. Mas as culturas, não sendo pessoas, não têm consciência. Claro que não existem culturas sem pessoas, são as pessoas que fazem as culturas. Mas a partir do momento em que as pessoas fazem as culturas, estas acabam por se sobrepor às pessoas, e sobrepor-se às suas consciências, ainda que essas culturas não tenham consciência.
Façamos o seguinte exercício: apagar a história e recomeçar tudo de novo, recuando até ao século da viragem cristã. Pensemos agora em conciliar o Sermão da Montanha de Mateus com o Bezerro de Oiro do Pentateuco. Parece possível? Não, uma loucura, um desses desvarios existenciais causadores de palpitações e arritimias kierkegaardianas. Mas nós, YES!, contraditória e paradoxalmente, conseguimos isso enquanto cultura. Aliás, bem expresso neste belíssimo retrato de Quentin Massys que merece um bom par de horas a olhar para ele.