26 junho, 2014

IR AOS FILMES


Nós abrimos um manual de Filosofia e de Psicologia e vamos dar com uma fartura de filmes apresentados como "documentos" que, juntamente com textos de apoio, powerpoints ou esquemas conceptuais, servem para facilitar ou enriquecer as aprendizagens. Eu entendo a bondade didáctica das sugestões mas não deixa de ser irritante e até perturbador. Admito que não sou eu a atirar a primeira pedra nem me sinto com superioridade moral para o criticar. Em Filosofia passo sempre o Primeiro Mandamento do Decálogo, do Kieslowski. Em Psicologia, já tenho passado o My Fair Lady e a Laranja Mecânica. Mas penso sobretudo nas dezenas de vezes que já passei o Menino Selvagem como "documento", neste caso, para abordar o processo de socialização ou a noção de cultura.
Eu vi o Menino Selvagem pela primeira vez, com 10 ou 11 anos, numa daquelas solares tardes de Verão na Nazaré em que  punha de lado o fato de banho para me amordaçar com camisa, calças, meias e sapatos para entrar na escuridão da sala de cinema. O impacto era brutal. Saber que lá fora havia Sol, mar e areia com tudo o que isso envolve e saber-me ali fechado, sentado numa cadeira, a ver um filme projectado num ecrã. Lembro-me disso como se fosse hoje.
Foi com o Menino Selvagem que tive pela primeira vez a percepção de um filme enquanto objecto estético. Começando no preto e branco das imagens, passando pela música de Vivaldi, no ritmo da realização, na sobriedade dos actores e acabando no próprio argumento. É por essa razão que, ainda hoje, não me canso de o ver com um misto de prazer e de nostalgia. Depois dele vi, durante toda a minha juventude, dezenas de filmes que tiveram o mesmo tipo de impacto estético e que contribuíram para eu formar uma imagem do mundo, das pessoas e das relações. E quem diz filmes diz livros. 
Um filme ou um filme não servem para nada e quanto menos servirem para alguma coisa mais valiosos serão. Claro que instrumentalizar um filme ou um livro, transformando-o num documento de trabalho, é uma forma de o pôr a render. Torna o filme, portanto, útil e rentável. Mas não é isso que valoriza o filme ou o livro.
O filme que eu estou a ver não é o filme que os alunos estão a ver e o nosso prazer não é o mesmo. Eu estou a ver um filme que vale por si próprio, eles estão a ver um documento. Em ambas as visões é possível o pensamento e formas de o conceptualizar. Só que enquanto eu parto do filme para os conceitos, os alunos vão dos conceitos para o filme. E isso faz toda a diferença.
É por isso que o pobre e humilde cinéfilo que há em cima se exaspera sempre que num manual vejo, para o tema A ou B, sugerir um filme que faz parte do meu património íntimo, descobrindo-o como objecto utilitário e rentável e já não como objecto cujo valor se reduz à sua pureza estética. Eu também o faço. Mas sinto sempre que estou a transformar o filme numa puta e que naquele momento não passo de um desonesto proxeneta.