30 junho, 2014

E DEUS CRIOU A MULHER

Roger Vadim | E Deus Criou a Mulher, 1956 [fotograma]

Não é todos os dias que se vê um papa a falar de mulheres, sobretudo da sua beleza, daí eu não poder ficar indiferente com o facto de o papa Francisco dizer que a mulher é a coisa mais bela que Deus fez. Não me parece que o papa se lembre da beleza feminina enquanto Jorge Bergoglio. Ou seja, enquanto homem. Ou seja, enquanto máquina de produção de testosterona ainda que sublimada por uma depurada e cristã sensibilidade estética. Não, não pode ser, é mesmo Francisco, representante de Deus na Terra a falar ex cathedra e protegido pela esplendorosa redoma teológica da infalibilidade papal. Está dito está dito. A beleza feminina será, por isso, neste caso, mais assunto de apreciação teológica do que de  hormonas saltitantes, logo, sendo eu homem sensível aos assuntos espirituais, não podia deixar passar em branco esta graciosa piscadela de olho ao belo sexo. A questão é: porque é bela a mulher e porque se esmerou tanto Deus com a sua beleza? Só a Teologia o poderá explicar e nada melhor do que recorrer ao livro cujo autor é Deus.

Génesis: O Senhor Deus disse: «não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». Então, o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse. O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo, não encontrou para ele uma auxiliar adequada.
Então o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem.

Uma das coisas que mais me intrigam na Bíblia é ver Deus passar a vida a perceber que fez merda. Num ser humano será coisa normal e eu sou disso um excelso exemplo. Ao contrário de outros como o eng. Sócrates ou o dr. Passos Coelho que nunca na vida fizeram merda apesar do ambiente nauseabundo que conseguem gerar à sua volta. No caso de Deus já é estranho. Um Deus não deve agir por tentativa e erro, mas Deus está sempre a reparar que afinal as coisas não eram bem como ele tinha pensado. Se Deus fosse mesmo Deus a sério teria logo antecipado que um homem precisa de uma mulher (creio que se Deus fizesse hoje o mundo não iria ser tão conservador e perceber que um homem também pode precisar de um outro homem e uma mulher de uma outra mulher) em vez de ter feito o homem e, depois, ups!, perceber que a criatura estava só e precisava de alguém para lhe aquecer os pés no Inverno.
E  embora ainda tenha ido a tempo de o perceber, voltou a errar, neste caso, com uma mistura de ingenuidade e preguiça. Como já se tinha dado ao trabalho de criar os animais, acreditou que Adão poderia satisfazer-se com uma criatura irracional. Ora bem, se Adão, vá, tivesse visto o Everything You Always Wanted to Know About Sex But Were Afraid To Ask, poderia entusiasmar-se com a possibilidade de ter uma relação amorosa com uma ovelha. Aliás, são célebres as histórias de pastores que afagam desses modo as suas solitárias mágoas, por isso não é nada do outro mundo. Eu próprio já dei comigo a imaginar como é que será com uma ovelha, deliciar-me naquele fofo mar de lã. Mas creio que Adão não iria mesmo na cantiga, concluindo que apesar de se poder sentir tentado perante um corpo tão lãzudo e ergonómico, bem mais apelativo do que o de um elefante, leão ou búfalo, teria de puxar dos seus galões e, tal como Deus fez em relação a ele, também iria desejar uma criatura à sua imagem e semelhança, excepto num ponto fulcral que lhe permitisse assumir a sua genesicamente fulgurante masculinidade.
Deus, que deve ter espírito auto-crítico, lá percebeu que na tentativa seguinte teria de se esforçar e dar mesmo o seu melhor. Se não conseguiu entusiasmar Adão com toda aquela luxuriante diversidade zoológica, deve ter presumido que não bastaria criar a mulher. Teria que criar a mulher, sim, mas uma mulher que obrigasse Adão a sair da sua edénica inocência. E pronto, pelo que vem descrito a seguir, percebe-se finalmente a satisfação de Adão perante a nova criatura. Não é difícil imaginar Adão a abrir os olhos e, numa altura em que as convenções sociais ainda estavam longe, a reagir como um pastor quando, após dias e dias de solidão, sobretudo no áspero e frio Inverno, dá consigo a contemplar as lãzudas curvas de uma ovelha, transformada sacrificialmente em Agnus hominis.
E foi assim que o homem, e Adão é a humanidade, se perdeu, mal abriu os olhos. O papa Francisco foi simpático com as mulheres. Infelizmente, esqueceu-se de lembrar as nefastas consequências para o homem.