06 junho, 2014

ANTES E DEPOIS




Vá até aqui e clique sobre cada uma das fotos. Vai poder ver o antes e o agora de lugares que protagonizaram o desembarque das tropas aliadas em França cujo aniversário se comemora hoje. Para quem gosta de história é um exercício fascinante poder comparar uma rua, uma igreja ou praia em pleno teatro de guerra, lugares cheios de história, portanto, com a pacatez actual onde essa história, outrora pungente, passou a ser apenas um fantasma sem uma voz sequer para assombrar, ensurdecida no meio de um vulgar e pragmático quotidiano que lhe virou as costas e lhe é indiferente.
Não existem fotografias de Salamina, Poitiers, Aljubarrota ou Waterloo. Por isso, embora fossem lugares não míticos mas geograficamente reais (diferentes do Parnaso ou da Arcádia que, apesar de existirem de facto, são míticos), não passam de nomes, conceitos, ideias, impedindo assim de se poder comparar visualmente o antes e o depois. Mas havia máquinas fotográficas em 1944 e cá temos então a possibilidade de colocar no mesmo plano ontológico duas realidades descontinuadas, ambas com o mesmo nível de ser, uma tão real quanto a outra e só separadas pelo tempo enquanto fina camada que apenas faz mudar a nossa perspectiva delas. E mesmo que a rua não esteja exactamente na mesma (embora seja exactamente a mesma), a alteridade surge inevitavelmente ligada à mesmidade, como as duas faces sinteticamente conciliadas de uma mesma moeda, não como duas moedas distintas como são um euro e uma libra.
De todas as imagens, aquela cujo contraste entre passado e presente mais me interpelou, não foi a de uma rua, igreja ou praia enquanto lugar identificável. Visualmente, sim, foram essas. Mas não filosoficamente, no sentido de uma filosofia da história tal como se começou a desenhar no século XIX. Neste caso, foi o par que aqui vemos em cima. Antes, as forças aliadas preparando-se para o turbilhão das horas seguintes. Depois, enfim, depois, o nada. Uma pura abstracção. Enquanto a rua, a igreja ou a praia têm uma identidade única e insubstituível, este pedaço de mar poderia ser em qualquer parte do mundo, faltando-lhe um rosto, uma identidade, uma marca genética que a demarque de outras realidades geográficas.
Olhar neste caso para o antes e o depois, quer dizer, para o ruído, a azáfama, a inebriante tempestade bélica, e depois para o nada e invisibilidade de um não-facto presente, obriga a pensar que no dia anterior ao ruidoso desembarque daqueles soldados, era também o nada e a invisibilidade de um não-facto que marcavam presença naquele lugar, como um imutável e absoluto fundo silencioso do qual emergem as pontuais e contingentes erupções históricas que voltam entretanto de novo a submergir no silêncio. Como a famosa onda da Nazaré, as erupções históricas vêm sempre de um fundo invisível mas que faz o seu trabalho lento e oculto nas costas do presente, sempre demasiado distraído consigo próprio para disso se poder aperceber. Neste momento, como sempre, o mundo e a humanidade estão na presença de não-factos. Daqui a cem anos, quando se fizer a história do século XXI, ir-se-á então olhar para inócuos e insignificantes pedaços de mar como este e associá-los aos movimentos que virão a fazer a história do século XXI.
Fotos como a de cima, a do antes, serão sempre fotos pontuais, relativas, contingentes, ligadas circunstancialmente a um lugar e a um dia. Uma foto de Salamina seria sempre diferente de uma foto de Poitiers, por sua vez diferente de uma outra de Aljubarrota e ainda mais daquela que veríamos de Waterloo. Tudo é diferente na história. Mas sob essa superfície vital, feita de ruídos e de cores como uma pintura expressionista, existirá sempre um cosmogónico oceano, informe, intemporal, monótono, para onde é sempre demasiado cedo ou demasiado tarde para olhar, porque, como diria Santo Agostinho, ele mesmo um pensador da história, o futuro ainda não existe e o passado já não existe.