15 junho, 2014

AGOSTINO CARRACCI - MARTE E VÉNUS


A pornografia enquanto visão distópica do sexo, reduzindo-o a uma pura libido alienada de quaisquer sentimentos e laços afectivos em quem o pratica, está nos antípodas de uma visão utópica que o espiritualiza, depurando-o da sua crua animalidade. O sexo cristão é a sua expressão mais eloquente.
Ao contrário do que possa parecer, eu não venho aqui falar de sexo e das suas diferente representações. Só não quis dar ainda por encerrado o quadro de Lagrenée do post anterior, perante o qual mostrei a minha dificuldade não só no modo como representa a disposição de Marte face a Vénus, mas sobretudo pela natureza idílica da alegoria, atendendo à natureza de Marte. Eu não posso dizer que morra de amores por esta versão de Carracci. Nem de longe nem de perto. Aliás, qualquer representação pornográfica, por inerência, será sempre má. Todavia, a crueza pornográfica da ligação acaba, neste caso, por ser tornar a minha aliada, dádiva que não vou enjeitar. E se de Carracci aproveito a imagem, é a uma inestimável referência que recorro para o justificar, por acaso, outro Agostinho: Santo Agostinho.
No capítulo XVIII, do livro I, do Volume I de A Cidade de Deus, intitulado Violência e paixão carnal sofridas no corpo da vítima contra sua vontade, o bispo de Hipona, na mesma linha de S. Paulo, enfrenta o problema da pureza e do pecado nas suas dimensões física e mental, pondo em causa a sua unidade. Distingue por isso a santidade do corpo e a santidade do espírito. Uma mulher de espírito puro, não é por ser violada que vai perder a santidade corporal, do mesmo modo que numa pessoa cujo corpo está quieto mas o espírito concupiscente, esse corpo, ainda que sem acção, já está em pecado. Diz ele que não é pelo facto de uma parteira, ao verificar a integridade de uma donzela a destruir por maldade, que essa integridade vai ser posta em causa, ou a santidade física de mártires cristãs cujos corpos foram abusados por pagãos sem escrúpulos. Isso, para Santo Agostinho, são peanuts. Depois, no capítulo XIX, centra-se no caso de Lucrécia, violada por Sexto Tarquínio, embora aqui para criticar o seu suicídio. Porém, aproveita para distinguir numa mesma situação sexual o que se pode entender por "união dos corpos mas separação das almas".
É por isso que gosto mais desta representação crua da união sexual entre Vénus e Marte. Materialmente, quem uma união sexual todas as uniões sexuais. Ver é ver. Não é por acaso que todas estas uniões sexuais, envolvendo personagens tão distintas, não se distinguem umas das outras. Estamos em plena objectividade behaviorista, a mesma objectividade com que um físico traduz a queda de um grave ou a ebulição da água a 100 graus. Tirando pormenores que para o caso são irrelevantes, nós olhamos para Marte e nada o distingue de Hércules que, por sua vez, não se distingue de António. Do mesmo modo, o que distingue aqui Vénus de Cleópatra, de Briseida ou Ariadne, gente tão diferente entre si? Mas a pornografia é assim mesmo. Na mesma linha de Santo Agostinho, embora com propósitos obviamente distintos, a motivação pornográfica é radicalmente dualista, nada de misturar corpos com espíritos, de unificar os materiais movimentos do corpo com os movimentos do espírito. Materialmente, não há qualquer distinção entre a união sexual de um soldado romano com uma santa cristã e a união sexual de um sátiro com uma ninfa, ou sequer de dois cristãos cujo acto é sacralmente legitimado por Deus com vista à multiplicação ordenada no Génesis. Daí não podermos jamais partir do sexo para o espírito, deduzir o movimento interno do espírito a partir do movimento do corpo.
Por isso considero esta versão de Carracci, embora crua e nada subtil, mais intelectualmente honesta do que a do pintor francês. Carracci não inventa, não romanceia, não alinha em líricas fantasias que adulteram a natureza de Marte. Vemos os corpos de Marte e de Vénus mas, dos corpos, como diria Santo Agostinho, nada podemos inferir a respeito dos espíritos, das suas individualidades, da suas identidades. Lagrenée transforma Marte no que ele jamais poderá ser, e o seu elmo de guerra num ninho para pombas brancas. Carracci, não mostrando nada para além do que os olhos vêem, acabam por não dar ao espírito mais do que lhe é permitido pensar. Não abre horizontes mas também não nos cega com uma imaginação desmiolada e perigosa, aquela que Platão tanto execra no Livro III da República