29 junho, 2014

A GAIA CIÊNCIA

Jacques Henri Lartigue | Royan, Julho, 1924

No dia 28 de Junho de 1914, em Sarajevo, seis jovens esperavam o arquiduque Francisco-Fernando para o assassinar. Um deles, sente-se vigiado pela polícia e foge. Um dos seus companheiros consegue fazer rebentar uma bomba mas em vez de atingir o carro do arquiduque atinge um outro. O que estava a seu lado, de pistola na mão, e certamente mais sensível, vendo a inocente arquiduquesa ao lado do arquiduque, não teve coragem para disparar. Um outro era míope e não conseguiu atingir o alvo. Gavrilo Princip, outro dos candidatos ao heróico assassinato, estando mais afastado e tendo ouvido a explosão, vai-se embora, acreditando que a missão tinha sido cumprida.
Uf! O arquiduque parecia estar mesmo destinado a não morrer, tal a sua sorte em virtude de uma complexa conjugação de factores aleatórios. Entretanto, vai à câmara, onde estava preparada uma recepção solene à sua excelsa figura e, em vez de seguir com a cerimónia, prefere ir ao hospital visitar os feridos que iam na viatura atingida pela bomba. O carro descapotável circula rapidamente pelas ruas estreitas de Sarajevo mas o motorista engana-se no caminho e tem de parar a viatura para fazer uma manobra. Ora, quem ia nessa rua, a ir para casa todo contente por pensar que o atentado tinha sido consumado? Gavrilo Princip. Que, de pistola no bolso, e vendo o arquiduque afinal vivinho da silva mesmo ali à sua frente, não se fez rogado e PUM!, despacha o arquiduque e mais a arquiduquesa e pouco depois começa a Grande Guerra.
Cem anos depois, no dia 28 de Junho de 2014, não em Sarajevo mas em Gaia, Portugal, durante as festas de S. Pedro da Afurada, um ladrão que andava a fazer das suas, perde-se, cai num buraco e, com a perna partida e meio desorientado, é obrigado a telefonar às autoridades que, após horas sem saberem onde ficava o buraco, lá conseguiram finalmente retirá-lo.
Estes dois episódios tão distantes no espaço e no tempo fazem-me lembrar o que dizia Arthur Schopenhauer sobre a pintura holandesa. A pintura holandesa permite compreender que não há situações da vida humana indignas de serem pintadas, não sendo apenas os grandes temas de carácter histórico ou religioso que merecem a atenção do pintor, como acontece em grande parte da história da pintura. 
Para o filósofo alemão, um acto pode ter uma importância exterior e interior. Para o historiador, apenas a sua importância exterior conta, em função das consequências que dele advêm. A cena caricata de Sarajevo tem uma importância exterior se pensarmos que do que daí resultou historicamente. Daí que para o historiador um acto de extrema banalidade possa ser reciclado e transformado num grande acontecimento histórico. Já a cena de Gaia não tem qualquer importância para o historiador pois, enquanto acto, morreu ali e dali nada veio de relevante. 
Mas os actos têm igualmente uma importância interior, uma importância intrínseca e que não depende das suas consequências. É importante porque revela a essência da humanidade, a sua condição, a sua identidade, independentemente do valor histórico que lhe atribuamos. Daí que para o filósofo, «quer se trate de ministros inclinados sobre um mapa a discutir territórios e povos, quer se trate de camponeses numa taberna a discutir por causa de uma partida de cartas ou um lanço de dados, o caso é exactamente o mesmo; tal como é idêntico o xadrez jogado com peões de ouro ou figuras de madeira».
Fossem os historiadores pintores holandeses e a cena de Gaia ficaria registada num livro de História ao lado da cena de Sarajevo. Mas não são, continuando assim a História a parecer uma ciência tão séria, fria e objectiva como a Físico-Química.