19 junho, 2014

A COSCUVILHICE UNIVERSAL

George Hoyningen-Huene | Agneta Fisher at the Opera, 1931 

Fica sempre bem a famosa frase de Terêncio: «Sou humano, nada do que é humano me é estranho». A frase pode servir para exprimir ideais humanistas e cosmopolitas, mostrando que somos todos feitos da mesma massa, tipo S. Paulo a dizer que não há judeu nem grego, não há homem nem mulher, não há senhor nem escravo. Mas também para mostrar que todos os comportamentos humanos, por muitos bizarros e estúpidos que sejam (ou talvez mesmo por isto), podem ser racionalmente explicados e justificados, o que se torna mais difícil perante um marciano esverdeado e com antenas na cabeça. 
Quem não conhece o autor pode julgar que se trata de uma daquelas sapientes máximas filosóficas de encher o olho como o «Só sei que nada sei», «Penso, logo existo», «Ama e faz o que quiseres», «Deus morreu», «Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal», «O inferno são os outros» «Há mar e mar há ir e voltar», «O que é racional é real, o que é real é racional». Errado. Terêncio foi um escritor de comédias que, fosse ele vivo, poderia estar a escrever comédias em Hollywood ou para programas cómicos na televisão. 
A frase, a famosa frase «Homo sum: humani nil a me alienum puto» (dita assim, ganha uma ainda mais elevada solenidade filosófica) é proferida no seguinte contexto. Na comédia Carrasco de Si Mesmo (Heautontimorumenos), há um camponês que gosta de se meter nas vidas dos outros. Um vizinho, zangado, diz-lhe para se meter na sua vida em vez de andar a meter o nariz onde não é chamado. É então que o camponês lhe responde: «Homo sum: humani nil a me alienum puto». Eis pois o profundo humanismo e cosmopolitismo da frase. Sendo ele um homem, acha-se no direito de se apropriar de tudo o que é humano, sobretudo as vidas dos outros. O impacto cómico é por demais evidente.
Eu nasci, cresci e vivi grande parte da minha vida numa rua com um café, três mercearias e uma padaria, praticamente encostados. Nessa zona havia um número elevado de domésticas, as temíveis vizinhas da minha rua, que circulavam por todos esses estabelecimentos enquanto mensageiras e comentadoras da vida alheia. Toda a gente sabia de toda a gente.
Ainda que haja um certa nostalgia face a esses anos de infância em que o mundo estava limitado à rua onde se jogava à bola e ao berlinde e era só chamar para vir para a mesa que a comida arrefece, eu já sou de outro campeonato e confesso que gosto de zelar pela minha privacidade e pela privacidade dos outros, ainda  que os meus vizinhos de cima não zelem muito pela sua. Mas se pensarmos nalguns aspectos relevantes da sociedade portuguesa dos anos 60, facilmente as compreendemos e humanamente as aceitamos. E  até podemos ir mais longe, pensando no who's who, no quem anda ou quem, ou no quem veste o quê, da vida social burguesa de outrora. Estamos a falar de contextos sociais onde as relações, sejam directas ou indirectas, são reais, fazendo toda a gente parte do mesmo microcosmos social.
Talvez por ser sempre demasiado cedo para uma nostalgia do presente eu tenha grande dificuldade em aceitar a perda de privacidade que abordei aqui. Quem sabe se daqui a algumas décadas, num mundo ainda mais transformado, os jovens de hoje não irão ter saudades deste romântico voyeurismo. O problema, para já, não é a coscuvilhice. A coscuvilhice é humana e nada do que é humano me é estranho. O problema é que num mundo finito a coscuvilhice é finita enquanto num mundo infinito a coscuvilhice é infinita. Numa rua, a coscuvilhice começa e acaba na própria rua. Num mundo que se tornou inteiro, a coscuvilhice torna-se igualmente inteira. É a diferença entre saber-se na mercearia que o filho da dona Zulmira anda nu na piscina ou que a filha do engenheiro Antunes vai com o namorado lá para casa quando os pais saem para o trabalho, e saber-se que há jogadores croatas (pelo amor de Deus, croatas!) que tomam banho nus na piscina privada de um hotel brasileiro, andar a ver as fotos do aniversário do filho do nosso 458º amigo do Facebook ou mais um arroto do twitter para 6 milhões de seguidores religiosamente ouvirem.
Eu sei, é a aldeia global. Mas não me apetece viver nela. Sou homem mas começo a perceber a minha estranheza num mundo cada vez mais transparente, onde a luz nunca se apaga e os olhos nunca se fecham.