28 junho, 2014

28 DE JUNHO DE 1914


É do senso comum aceitar que a História é mais acessível do que a Matemática. Há mesmo quem diga que muitos, por falta de inteligência e engenho, seguem Humanidades só para fugir às "ciências" como o diabo da cruz. Mas mesmo uma pessoa que lide facilmente com a Matemática terá de recorrer a um esforço, método e disciplina cuja complexidade não se compara às que são precisas para se poder compreender o que têm andado a fazer os seres humanos desde o tempo das cavernas até aos nossos dias. A História, no fundo, mistura um pouco de Correio da Manhã com jornalismo de investigação. Uma ciência feita de curiosidades, muitas delas picantes ou dignas de revistas cor de rosa, mas também enriquecida com elementos de natureza política, económica, social e cultural graças aos quais conseguimos compreender o como e o porquê do que tem acontecido até chegarmos aqui. Daí dizer-se que para ser bom aluno a História basta estudar. Quer dizer, basta ler, como quem lê um jornal ou uma revista, enquanto para ser bom aluno a Matemática já será preciso mobilizar o que há de mais mentalmente complexo produzido pelos biliões de neurónios alojados na caixa craniana.
E pronto, se o senso comum diz mata, eu, que perante a Matemática sempre me senti um boi a olhar para um palácio, digo esfola. Eu acho que gosto de História porque é das poucas ciências que consigo compreender. Isso não invalida, todavia, haver coisas que acontecem ao longo do tempo que, para as podermos compreender, mais parecemos uns iniciáticos órficos a tentar timidamente penetrar numa ciência oculta e esotérica.
A Guerra de 14-18 é disso um bom exemplo. A Matemática pode ser difícil de compreender. Mas quando se compreende, como diria Descartes, revela a forma mais clara e distinta de um ser humano pensar. Deve ser mais ou menos assim como escalar o Evereste. Custa a lá chegar mas depois sentimo-nos mais perto de um esplendoroso céu azul sem obstáculos. Há uns anos, um senhor chamado Jean Starobinski escreveu um livro sobre Jean Jacques Rousseau, chamado A Transparência e o Obstáculo. Pois eu acho que a nossa relação com a Matemática é precisamente a contrária: o obstáculo e a transparência. A Matemática, na sua esplendorosa racionalidade, é transparente, limpa, objectiva, completamente desantropomorfizada, palavra difícil que traduz o facto de na Matemática contarmos apenas com uma razão livre de quaisquer projecções afectivas e que a ideia de 2+2 serem 4 não depende do facto de serem seres humanos a pensar nisso.
Mas a Guerra de 14-18 é um daqueles momentos em que a obscura natureza humana emerge das trevas para inquietar as nossas pobres cabecinhas. Podemos deter-nos no mais racional emaranhado de causas que explicam efeitos e de efeitos explicados por causas. Podemos tentar pôr-nos no lugar da Áustria, da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Rússia. Claro que há uma explicação para tudo: as alianças, as rivalidades, os impérios, as colónias, os nacionalismos, a economia. Vem no livros, está lá tudo chapadinho preto no branco.
Não para mim, que não me contento com pouco. Nenhum racional nexo causal explica a mortandade que dali veio, caído do céu aos trambolhões nesse Verão europeu esburacado por trincheiras e envenenado com gás mostarda. Por muito boa vontade que tenhamos a pensar, a analisar, a reflectir, a interpretar, há coisas na História que escaparão sempre ao mais elementar dos raciocínios.
Descartes olhava para a História com relutância. Para ele não tinha qualquer espécie de interesse uma vez que não pode estar submetida a princípios racionais e claras demonstrações. Eu não sou cartesiano, nem nada que se pareça, e também nisto da História não o acompanho. Mas que a História parece muitas vezes feita das ideias factícias e irreais que povoam a obscura imaginação, é uma grande verdade.