08 maio, 2014

VANITAS COM RELÓGIO

Josef Koudelka | Praga, 1968

O braço esticado pretende lembrar que a invasão soviética de Praga foi um facto histórico ocorrido num tempo próprio. Na verdade, aquele relógio deverá lembrar-nos que todos os factos históricos ocorrem num ano, um dia, uma hora específica. Não enquanto simples datas mortas para memorizar na escola e depois enunciar com os mesmos automatismos da tabuada, mas enquanto tempo pensado à semana, à hora, ao minuto, ainda que o relógio ainda nem sequer existisse ou, existindo, não pudesse lá estar para nos lembrar como aqui. A história existe no tempo, não há história sem tempo, tudo o que nasce e morre na história emerge e submerge num tempo que nunca pára. Dez minutos depois desta fotografia os ponteiros já não estavam na mesma posição. Na verdade, a história não se compadece com relógios parados, tempo e relógios parados são absolutamente incompatíveis.
Mas olhemos de novo para a fotografia. Há 46 anos que o movimento daqueles ponteiros foi capturado pela máquina do fotógrafo e assim ficou: hibernado, congelado, sobrevivendo à morte, tal como aquela rua de Praga que, hoje, a esta hora, há-de ser outra e com um movimento diferente de pessoas. Lembra aqueles desenhos animados em que uma pessoa morre e vemos a alma a sair-lhe do corpo. O tempo é uma morte permanente e irredutível na qual nós também vamos morrendo, em que tudo vai morrendo. Mas esta fotografia, este relógio, saíram do próprio tempo e adquiriram uma imortalidade. Imaginemos, desde 1968, as voltas que aqueles ponteiros já deram. E as voltas que o mundo deu com as voltas daqueles ponteiros. Mas na fotografia o tempo ficou congelado e conquistou a imortalidade.
Nós não sabemos como vai ser o futuro. O futuro é sempre um infinito feixe de possibilidades. Mas aquele dia de 1968 é aquilo que é, ninguém o pode mudar, o que é transcendente não se muda. Vê-mo-lo sim, mas como se estivesse protegido numa urna transparente com vidro à prova de tempo. O mundo pode acabar, todos nós iremos acabar, e aquele relógio continuará, impávido a sereno, qual alma do outro mundo, rindo-se da nossa própria mortalidade, que não é cronometrada por um relógio cujos ponteiros rodam eternamente rumo ao infinito mas por uma ampulheta cuja areia não é, infelizmente, daquela que nos é atirada tantas vezes para os olhos..