16 maio, 2014

THE BAREFOOT TEACHER

Robert Doisneau

Pelo que me pude aperceber, Torres Novas deve ter sido o único sítio de Portugal e arredores onde hoje de manhã choveu torrencialmente, mais uma enorme ventania e um cavo trovejar como música de fundo. E, na mouche, no exacto momento em que me dirigia, como sempre, a pé para a escola. Resultado: calças completamente empapadas e coladas às pernas, sapatilhas a fazer plof plof e a arregaçada manga direita da camisa ensopada.
Lá fui estoicamente dar as minha aulas. Depois chegou o habitual período de ir para a a biblioteca, o meu refúgio natural quando faço horas para a aula seguinte. Sentei-me na mesa do costume e saco do livrinho para ler. Entretanto, sentindo o desconforto de uns pés húmidos dentro de umas sapatilhas molhadas e a pensar nos efeitos nefastos para a minha garganta, resolvi descalçar-me e ficar sossegadinho a ler, tipo carmelito descalço.
Foi estranha a sensação de estar descalço num local que em tempos teve uma dignidade que o tornava devidamente obsequiado por quem o frequentava. Fui por isso levado a pensar no quanto desrespeitoso poderia estar a ser o meu comportamento. Mas logo pensei, estando ainda para mais, como de costume, no sítio mais recolhido da biblioteca, que os meus silenciosos pés incomodariam muito menos do que o habitual espalhafato de professores e alunos que por lá falam como no mercado de Torres Novas ao sábado de manhã, que atendem telemóveis como se estivessem a receber chamadas da Nova Guiné, ou que reúnem entre si, fazendo da biblioteca uma ágora grega.
Ainda assim não foi suficiente para me tranquilizar. Lembrei-me de um romance de Patricia Highsmith que li há muito, no qual a protagonista está a enlouquecer mas sem se aperceber. Nós lemos a história a partir da sua própria consciência, ou seja, vê-mo-la a pensar, a raciocinar, a percecpcionar o mundo. Percebemos então que para ela tudo é normal, tudo tem um sentido, uma justificação, uma lógica. Nós, porém, que estamos de fora, vamos assistindo à sua lenta alienação mental. Tive então a consciência de que o meu argumento não bastaria. Muitas das grandes loucuras da humanidade, sejam colectivas ou individuais, são sustentadas através de argumentos. O louco que faz trinta por uma linha apresenta sempre uma razão para justificar o que faz. Estarei eu a enlouquecer, manifestando comportamentos bizarros de que não me apercebo?
Pensei, todavia, que se fosse esse o caso, já disso me teria apercebido através das reacções alheias. Eu faço a minha vida normal, dou as minhas aulas, recebo encarregados de educação, não vejo alunos a rirem-se de mim ou com expressões de escárnio, logo, ainda não chegou o meu tempo de ensandecer, embora acredite que mais cedo ou mais tarde possa ser o meu triste (ou alegre) destino.
Creio que a minha ousadia podológica se deveu apenas a uma liberdade que só a idade pode trazer. A idade pode roubar-nos muita coisa. Mas deus tira com uma mão o que dá com outra. E quanto mais próximo da morte estou mais livre me sinto em relação à vida. E se me apetece acreditar que ler, silenciosamente, um livro, descalço na mesa de uma biblioteca, porque tenho as sapatilhas molhadas, é menos desrespeitoso do que tagarelar como se de um café em noite de bola se tratasse e sem que vejam nisso qualquer anormalidade, quem são afinal os outros para me convencerem do contrário? Deve ser mais ou menos isto que querem dizer quando dizem que ser velho é voltar de novo a ser criança.