19 maio, 2014

TEORIA DA RELATIVIDADE

Robert Doisneau | La Petite Monique, 1934

Mais de quarenta anos depois, voltei hoje à escola primária. Desta vez, para fazer a vigilância do exame de Português do 4ºano.
Estavam as crianças a fazer a prova e eu, num ápice, a molhar a madalena no chá. A pensar na minha horrível antiga sala de aula, com os mapas de Portugal e das colónias por causa de cujas províncias, capitais de província, ilhas de Cabo Verde, rios e serras levei muita reguada e sofri terríveis problemas de ansiedade. A pensar no crucifixo crucificado na parede e como ainda hoje considero um disparate o modo como foi escolhido para símbolo de uma religião por meia dúzia de castrados e ressentidos com o mundo. A pensar no patológico respeito e subserviência que nos eram incutidos perante sádicas figuras de autoridade. Não, não tenho boas recordações da escola primária.
Entretanto, chegou ao fim a primeira parte da prova e lá fomos para intervalo. Quando os alunos se estavam a sentar nas carteiras para iniciar a segunda parte, ouço a palavra "Einstein" e uns risos pelo meio. Percebi logo o que se passava e mais uma vez me fiz parvo (já começa a ser recorrente). Perguntei então o que se passava com o Einstein. Uma garota que estava na primeira carteira respondeu:
- És parecido com o Einstein!
Perguntei-lhe, com ar intrigado e franzindo o sobrolho, por que achava ela que eu era parecido com o Einstein, e também se tinha o hábito de tratar os professores por tu. Ela disse que não. 
- Se não - voltei a atacar - por que estás então a tratar-me por tu?
- Porque tens cara de amigo - disse ela, com um sorriso envergonhado.
Fiz o meu papel e a minha pedagogia: dei a entender, através do tom de voz e da expressão do rosto, que não tinha ficado nada satisfeito com o facto de ela me estar a tratar por tu. Cá dentro, porém, bem resguardado da minha seriedade institucional, a minha vontade foi fazer-lhe uma festa na cabeça e tentar mostrar-lhe com um sorriso toda a ternura que senti por aquele momento sem mapas das colónias, um cristo ensanguentado na parede e sem  ter professores sádicos, salazaristas e carunchosos como colegas.
O tempo, felizmente é mesmo relativo. De certeza que para estas crianças o seu tempo de escola primária vai passar muito mais depressa do que passou para mim.