23 maio, 2014

SEX APPEAL FILOSÓFICO


Tive três garotas a apresentar um trabalho no qual foi dado bastante relevo ao pensamento de Albert Camus sobre o sentido da existência. Elas lá explicaram, e muito bem, o que havia a explicar. A mim, que nada tenho de idólatra, deu-me para fazer um exercício de idolatria. Lá estive a falar da história de ele ter sido guarda-redes, da sua infância pobre, da ligação à Resistência, do trágico acidente de automóvel que o levou tão cedo, do seu percurso como escritor, nomeadamente de teatro. Enfim, a vender o peixe de se tratar de um homem fascinante e que vale a pena conhecer.
Pronto, deu-me para ali. Mas eu até sei por que me deu para ali. Deu-me para ali porque sinto nostalgia (mais diferida do que vivida) do tempo em que havia intelectuais, nomeadamente filósofos, que habitavam o imaginário popular ao lado de ídolos do cinema ou da canção, independentemente do seu valor filosófico ou de terem razão. Nos anos 60 havia em França um slogan estudantil, dizendo que era preferível estar errado com Sartre do que ter razão com Aron. Confesso que é das coisas mais estúpidas que ouvi em toda a minha vida. Mas é uma bela estupidez, uma estupidez que tem tanto de romântico como de divertido, e eu adoro coisas românticas e divertidas. Eu, apesar de conseguir ser bastante estúpido em montes de coisas, não consigo partilhar esta estupidez. Até porque penso em Sartre e lembro-me do facto de haver poucos filósofos que tenham conseguido ser tão estúpidos quanto ele. Mas confesso que tenho inveja dessa estupidez dos jovens franceses. Sartre pode ter sido estúpido em montes de coisas, embora, sejamos justos, se tenha também fartado de escrever coisas inteligentes e de bastante valor. Mas tenho pena de já não haver intelectuais da dimensão do autor de As Mãos Sujas ou As Moscas, que apesar de ele próprio ter sujado as mãos de tinta a vender jornais tontos, fazia da filosofia e da literatura uma actividade comprometida e popular.
Grande parte dos filósofos actuais são uns chatos. Parecem uns engenheiros envolvidos em questões demasiado técnicas, acreditando que uma construção filosófica pode ter o mesmo grau de consistência de uma ponte ou de uma barragem. Filósofos como Sartre e Camus falavam muito, escreviam muito e, por isso, arriscavam mais o disparate. Mas que mal tem isso se conseguiam fazer da filosofia e da literatura referências importantes, tornando-se modelos sociais, para o melhor e para o pior?
É por isso que eu gosto deste homem. Tem o dom de conseguir por vezes ser ainda mais estúpido do que Sartre, tarefa que não está ao alcance de qualquer um. Mas cá está, é outro que sofre de incontinência romântica cujo valor é inestimável e merece ser preservado. Quer lá ele saber do que diz. O que importa é dizer. E marca quando abre a boca, conseguindo o seu nome chegar facilmente às mesas dos cafés, mobilizando-nos para a sua estupidez na qual se salvam muitas verdades e onde, no meio de tanta falta de juízo, emerge muitos juízo pertinente.
Zizek herdou o espírito controverso de Saint Germain de Près, há muito moribundo e o mundo precisa disso como de pão para a boca, gostemos ou não dos seus samurais. Precisamos de Unamunos, de Ortegas, de Sartres, de Camus, de Beauvoirs, de Chomskys, de Zizeks ou até, e que deus me perdoe, de Agostinhos da Silva, que ia à televisão despejar disparates atrás de disparates. Mas que ao fazê-lo, provocava, fazia pensar e discutir, divertia, entretinha, tornava a filosofia uma actividade lúdica. São verdadeiros gigolos do pensamento, gente que vive do engate intelectual e que espalha o seu glamour filosófico e literário pelos perfunctórios meandros da banalidade.
Belos tempos aqueles em que o cidadão comum andava com livros de Camus debaixo do braço, ou em que os jovens andavam vestidos de preto e com ar amargurado para poderem ser existencialistas, mesmo que pouco entendessem deles. Mas que importa isso? A estupidez de se fingir que se é inteligente é uma estupidez como outra qualquer. Não tão má, porém, nem de longe nem de perto, como a sisífica e absurda estupidez que se orgulha de o ser, e da qual vivemos proficuamente rodeados.