17 maio, 2014

SALTEADORES DA ARCA PERDIDA

Robert  Hecht | Book Pages, San Rafael, 2008

Assim, sem mais nem menos, por meríssimo acaso, dei comigo a ler o romance Afirma Pereira, de António Tabucchi. Não será um dos livros da minha vida ou um texto que me irá perseguir para todo o sempre. Mas está bem escrito, deu-me uma personagem, conta uma bonita história, retrata um período da nossa história contemporânea e apresenta, aqui e ali, momentos de interessante densidade psicológica. Pronto, gostei de o ler.
O livro saiu para aí há 20 anos. Não o li mas lembro-me de ter sido muito falado e comentado, creio mesmo que lido, embora isso seja mais difícil de avaliar. E se eu agora gostei de o ler, estou tentado a acreditar que há 20 anos foi também isso que aconteceu, uma vez que não se trata de um livro datado nem a humanidade mudou assim tanto neste curto pedaço de história. Todavia, quem estará neste momento, neste preciso momento, a ler o romance Afirma Pereira? Se eu o li não me atrevo a dizer que ninguém o está a ler, mas não devo andar muito longe disso. Se for esse o caso, como explicar então que um livro passe, num curto espaço de tempo, das iluminadas montras e prateleiras das livrarias ou de ser falado, para as masmorras do esquecimento? Explica-se pelo facto de um livro estar sujeito ao mesmo tipo de fluxos e refluxos que marcam os mecanismos da moda. Também há uns anos se viam mulheres com casacos e camisas com enchumaços de gladiador romano e funcionários públicos com peúgas brancas dentro de sapatos pretos enquanto agora basta tal memória para deixar uma pessoa mal disposta. Há livros que estão na moda, como há canções ou filmes que estão na moda. Lêem-se os livros, ouvem-se as canções e vêem-se os filmes quando aparecem todos contentes no mercado, porém, mal derrete a espuma dos dias, de imediato se desvanecem.
Esta lógica do efémero que faz o consumo de produtos culturais assemelhar-se aos padrões de gosto que marcam a agenda colectiva no que toca às escolhas nas cores do vestuário, sapatos, malas, gravatas, óculos ou penteados é completamente absurda, cruel e injusta para uma infinidade de produtos culturais deitados fora depois de mastigados pelo voraz apetite do calendário. Porque enquanto o padrão de gosto ligado à moda não passa de uma convenção artificialmente imposta e cujo valor é naturalmente arbitrário (porquê o laranja em vez do lilás, porquê as calças para dentro das botas em vez das calças à boca de sino?) um produto cultural tem um valor e uma identidade que deveriam torná-lo impermeável à corrosiva passagem do tempo. Por isso não faz sentido ler ou deixar de ler, ouvir ou deixar de ouvir, ver ou deixar de ver, tendo como critério a despótica lógica da novidade.
Há muitos anos que estou na mesma escola. Escola por onde fornadas de alunos vão entrando e saindo. Lembro-me de haver um ano em que andava toda a gente a cantar o Losing My Religion dos R.E.M. Fui agora ver o ano do disco: 1991. Há 23 anos, portanto. Os garotos que andavam a cantar isso andam quase pelos 40 anos. Não houve, todavia, qualquer mudança histórica relevante cujo impacto tivesse alterado os padrões de gosto. Claro que foram aparecendo géneros e estilos musicais que não existiam, mas continuamos a ter canções cuja estrutura melódica e rítmica se assemelha à ex-popular canção dos R.E.M. Significa isto, portanto, que se a canção fosse agora publicada os garotos iriam cantá-la com o mesmo entusiasmo dos seus antecessores e que só não a cantam porque já não lhes pertence. Como se cada geração se apropriasse de um bem que ficaria irremediavelmente condenado a não ser partilhada com outras.
Por isso as livrarias são cada vez mais lugares pouco recomendáveis uma vez que nos prendem à ditadura do presente e da novidade. Daí que o verdadeiro leitor, e quem diz leitor diz cinéfilo ou melómano (em sentido lato, não necessariamente apreciador de música erudita) aquele que ama a obra pelo que ela é e não pelo acaso de ter ou não ter coincidido no tempo com ela, deva ser cada vez mais um arqueólogo a saltear arcas perdidas. Por falar nisso, alguém terá hoje visto o filme do Spielberg?