22 maio, 2014

PERTO DA VISTA, PERTO DO CORAÇÃO

Dmitri Baltermants | Crimeia, 1942

Dizia eu que há certas ideias cuja pureza conceptual pode ser prejudicada por uma experiência sensível que tenhamos delas. Por exemplo, o diabólico sentido do holocausto ser atenuado pela visita a um campo de concentração, a nobre ideia de democracia ser perturbada pelo plenário da Assembleia da República ou pela experiência de uma campanha eleitoral. Há, todavia, situações, em que será o contrário: uma experiência sensível contribuir para iluminar um conceito. Por exemplo, a pobreza, a guerra ou o racismo. Podemos discutir em abstracto, seja filosoficamente, seja cientificamente, tais assuntos. Sendo, porém, realidades complexas e delicadas pelo que implicam de um ponto de vista humano, se nos mantivemos apenas no campo das ideias ou das crenças existe o risco de as entender com base numa racionalidade frívola e meramente funcional. Podemos abordar racionalmente, tecnicamente, politicamente, as vantagens ou desvantagens da guerra. Mas uma experiência, directa ou, felizmente, indirecta, da guerra, pode contribuir para melhor perceber o que verdadeiramente ela. Quando Tolstoi, em Guerra e Paz, filma e fotografa as batalhas de Borodino e Austerlitz, contrastando tais cenários de horror com os elegantes e iluminados salões de Moscovo ou Petersburgo, onde também se discute a guerra, a nossa relação com ela passa a ser completamente diferente. Há ideias que se devem manter puras para salvaguardar o seu significado e proteger a nossa lucidez acerca delas. Exactamente pelas mesmas razões, outras ideias, pelo contrário, devem tornar-se impuras, projectando-se num plano sensível.