05 maio, 2014

O ESPECTRO

Jacques Henri Lartigue, 1911

A 11ª Tese sobre Feurbach («Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diferentes maneiras, trata-se, porém, de transformá-lo») escrita por Karl Marx a meias com o seu amigo Engels na Primavera de 1845 leva-me até uma anedota do século passado: Cuba é uma ilha que não existe: a sua população está em Miami, o seu governo em Moscovo, o seu exército em Angola. 
Longe de mim qualquer reaccionário cinismo a respeito do socialismo real. Apenas quero rir, mais melancolicamente do que cinicamente, de uma piada que foi outrora fresca e viçosa como salsa acabada de colher mas que agora tem tanta utilidade como uma cassete de vídeo do Rambo. O mundo transformou-se de tal modo desde a desiderativa formulação de 1845 que os próprios Marx e Engels, tão imbuídos de Socialismo Científico e de um materialismo histórico que ousava formular em relação à história as mesmas leis científicas que a Biologia e a Física em relação à natureza, teriam mais hipóteses de acertar num Euromilhões novecentisa do que adivinhar o que iria ser o mundo em 2014 e o que entretanto foi acontecendo no mundo entre 1845 e 2014.
Chega a ser comovente o modo ingénuo como algumas pessoas, filósofos ou não, acreditam ser possível dominar a realidade, transformando a história num teatrinho de marionetas no qual, seja o ser humano, um povo eleito, uma classe social, um partido ou um líder, com as suas firmes mãos de escultor, vai manobrando os fios, antecipando, consciente, intencional e voluntariamente, o curso dos factos. Ou como um automobilista que sai de casa para fazer uma viagem acredita que depende apenas de si próprio para chegar ao seu destino de acordo com o previsto. Nós podemos querer mandar em nós próprios. Mas a realidade manda em nós a mandar em nós próprios. O espectro de que falavam Marx e Engels, três anos depois, não é mais do que a própria realidade.