20 maio, 2014

LONGE DA VISTA, PERTO DO CORAÇÃO

Aenne Biermann | Mulher com Monóculo, 1928

Dirá o senso comum que será sempre melhor poder ver o que se pensa do que apenas pensar o que se pode ver. Creio, todavia, que a limpidez de certas ideias pode ser prejudicada pela experiência visual ou física que temos delas, sendo, por isso, preferível mantê-las num plano puramente mental para preservar o seu verdadeiro significado.
Pensemos no holocausto nazi. O que significa o holocausto nazi? O horror absoluto, o absurdo tornado realidade, o nível mais degradante a que pode chegar a humanidade. Isto não é a definição de holocausto mas é nisto que pensamos quando pensamos na sua definição. Pensemos também na democracia. Na beleza da sua ideia cuja nobreza quando comparada a qualquer outro sistema político, facilmente compreendemos. Porém, se visitarmos um campo de concentração nazi enquanto expressão concreta, física ou visual do holocausto, ou uma sessão plenária da Assembleia da República enquanto expressão concreta, física ou visual da democracia, essa experiência sensível atenua o impacto da sua pureza conceptual.
Lembro-me da minha desilusão quando visitei Bergen-Belsen, o campo de concentração onde morreu Anne Frank. Desilusão? Como pode uma pessoa sentir-se desiludida com um campo de concentração, como se de um filme, um concerto ou uma exposição, se tratasse? A desilusão decorreu do facto daquela manhã ter tido o efeito de eufemizar o horror de que ia à procura quando para lá me dirigi. Eu ia em busca de uma ideia que iria finalmente conhecer em carne e osso. Acabei por dar um passeio numa agradável manhã de Verão.
Estar num campo de concentração é anular o verdadeiro significado do campo de concentração, obnubilar o seu verdadeiro sentido através de diferentes máscaras sensíveis, devido a uma ilusão de normalidade resultante do contacto físico com uma realidade feita de elementos banais: uma bilheteira, uma entrada, casas de banho, turistas à volta. Depois, andar por lá a passear num um dia de Sol ou de chuva, pássaros a cantar, árvores em volta, pavilhões. É claro que aquele Sol ou chuva é o Sol ou a chuva que haveria décadas atrás em Bergen-Belsen. E o mesmo cheiro a campo, as mesmas árvores com o mesmo som das suas folhagens batidas pelo vento, o mesmo chilrear dos pássaros sobrevoando o campo. Nada disso era virtual. Mas é precisamente o seu excesso de realidade, o seu excesso de verdade, o seu excesso de sensações que acabam por nos distrair do principal, do âmago da ideia, do verdadeiro coração da ideia, distraindo-nos do seu horror e absurdo. Porque, estando lá, lá mesmo onde tudo aconteceu, nada acontece, nada existe, as luzes foram há muito apagadas. No fundo, senti-me traído por uma estúpida sensação de normalidade, por um voyeurismo que serve apenas para satisfazer uma curiosidade turística, cujo efeito é absolutamente anti-pedagógico. Estive numa prisão e claro que Bergen-Belsen é uma prisão. Mas uma prisão é um edifício que faz parte de uma ordem institucional. Todos os países têm prisões e toda a gente aceita a existência de prisões pois fazem parte de uma lógica social que exclui temporariamente da vida social todos aqueles que julgamos não merecerem fazer parte dela. Torres Novas tem uma prisão, a prisão faz parte do tecido urbano de muitas cidades, juntamente com hospitais, escolas, quartéis, igrejas, etc. Ora, naquele momento, em Bergen-Belsen eu estava apenas numa prisão localizada num dado espaço, não perante uma ideia vulcânica que transcende os limites de qualquer medida ou razoabilidade e que nada tem que ver com todos os outro tipos de instituições que, incluindo as prisões, que ocupam o espaço urbano.
Embora por outras razões, passa-se o mesmo com o plenário da A.R. onde já tive o desprazer de ir várias vezes com alunos. Se porventura temos uma ideia romântica e enaltecedora da democracia, não irá ter ali qualquer possibilidade de sobrevivência. Estamos lá, no centro orgânico da democracia, no meio da sua corrente sanguínea, no que a faz funcionar, mas longe da sua alma e do seu coração que facilmente auscultamos quando apenas pensamos no seu valor. Mutatis mutandis, a minha experiência da A.R. é da mesma ordem da minha experiência de Bergen-Belsen.
Talvez por isso nunca mais tenha lá levado a alunos.