01 maio, 2014

ESTOICISMO

Elliott Erwitt | USA, Colorado, 1955

Eu não sei se o filósofo e psicólogo William James, irmão do escritor Henry James, gostava de música. E, se gostava, se conhecia as belas canções de John Dowland. Seja lá qual for o caso, há uma canção do compositor inglês cujos versos finais bem podem servir de abertura à estranha teoria do psicólogo a respeito das emoções: Tears kill the hearth, believe/ O strive not to be excellent in woe/ Which only breeds your beauty's overthrow.
No deve e haver das causas e dos efeitos, defende o psicólogo americano, contra-intuitivamente, claro, que não são os estados corporais que dependem de estados mentais, pelo contrário, são os estados mentais que resultam de estados corporais. No fundo é: não fugimos porque temos medo, temos, sim, medo, porque fugimos. E o mesmo se passa em relação à tristeza, à raiva e outras emoções. Há um estímulo que produz reacções orgânicas as quais, por sua vez, irão desencadear uma emoção correlativa.  Quer dizer, o estímulo provoca reacções como lágrimas, aumento dos batimentos cardíacos ou alteração do fluxo sanguíneo, as quais nos fazem ter então consciência de um estado de tristeza.
Eu não sou cientista e por isso não sei apreciar o valor desta teoria. Sei que hoje, estou a viver um dos dias mais fodidos da minha vida e, apesar de nada ter que ver com questões amorosas e femininas como na bela canção de John Dowland, resolvi seguir a sensata sugestão do músico inglês. A árida vacuidade de uma cabeça como a minha, já desgraçadamente revelada em tantas coisas, há-de também servir para melhor secar as lágrimas. Posso ser impenitentemente fodido pela puta da realidade e não tenho como escapar. Mas se estupidamente esvaziei a minha cabeça para umas coisas, também saberei sensatamente esvaziá-la para outras. Ser estóico não deve andar muito longe disso. E nesse pobre reino que é a minha cervantina cabeça de triste figura, e ainda que montado numa escanzelada e ridícula pileca, enquanto tiver um olho, continuarei a ser rei.