14 maio, 2014

CAMPANHA ELEITORAL

Diego Velasquez | O Triunfo de Baco ou Os Bêbedos,  1626-1628

Gosto desta mistura entre elementos naturalistas e mitológicos.
Os bêbedos que Velasquez aqui retrata são os bêbedos como eles são. Já todos os vimos, já todos passámos por eles. Há um que olha para nós e percebemos que já vimos aquela cara em algum lado, será o nosso drunk next door cujo riso não poderia ser mais humano, mais vulgar, mais natural. Mas a alegria destes homens deve-se claramente à presença de um deus que os inspira: Baco. É Baco que lhes mata a sede, é Baco que lhe enche as almas, é Baco que lhes traz felicidade. E a proximidade física entre o deus e os bêbedos não poderia ser maior. Estão misturados, ocupam o mesmo espaço. Estamos, pois, muito longe daquelas pinturas barrocas nas quais vemos figuras de uma ordem sobrenatural (Cristo a ressuscitar, santos, anjos, a Virgem, o Espírito Santo) num nível espacial superior, numa clara descontinuidade entre o sagrado e o profano.
Só que também aqui existe uma ruptura entre o deus e os bêbedos. Começa desde logo nos rostos. Os rostos dos bêbedos são rostos gastos, enrugados, massacrados por litros e litros de vinho. Rostos em harmonia com as suas figuras andrajosas e esquálidas, maculadas pelas dificuldades da vida apesar do efeito ilusório do vinho. O deus, pelo contrário, apresenta um rosto jovem, saudável, um corpo imaculado e revestido por uma luz branca irreal que surge aqui como auréola pagã. Mas podemos ver ainda uma outra ruptura entre o deus e os homens. Uma ruptura menos física, mais subtil: nos olhares. Embora os olhares dos homens não coincidam, todos eles estão envolvidos na cena. Mesmo aquele que olha directamente para nós e que se ri, não por se ter esquecido do que faz ali, mas que se ri para nós precisamente pelo que está a acontecer. Apesar de bêbedos aqueles homens estão ali de corpo e alma.
O deus, porém, denuncia uma descontinuidade entre o movimento dos braços (a acção de colocar a coroa na cabeça e que justifica a cena) e o seu olhar. Os seus braços estão na cena, alimentam a cena, revelam um movimento centrípeto. O olhar, pelo contrário, é absolutamente centrífugo: um olhar evasivo, que foge da cena, que apaga a cena, concentrando-se noutra qualquer dimensão. Daí haver uma enorme diferença entre quem bebe e quem dá de beber. Baco é o deus do vinho, é verdade. Mas Baco não bebe, Baco não surge aqui como bêbedo, decadente, aniquilado pelo álcool. Alimenta a trágica alegria dos homens, interage com eles, encosta-se a eles, mas, ao mesmo tempo, é uma presença ausente. Está lá em corpo mas não está em espírito. Finge misturar-se, finge que alinha na pândega mas a sua ordem de realidade é completamente distinta. Está no meio da desordem, da ebriedade, do hálito rançoso do vinho mas a sua luz sobrenatural protege-o, mantendo a sua pureza divina. Por muito popular que seja um deus, todo o deus é um aristocrata, um arístos, alguém cuja identidade resiste a qualquer mancha humana, a todo o tipo de contaminação de um mundo inferior.
Vemos aqui um processo que é socialmente comum. Podemos ver isto, por exemplo, na relação entre os traficantes de droga e os drogados. Mas também podemos ver, e é aqui que eu pretendo chegar, na relação entre os políticos e o povo que os elege. O populismo dos primeiros leva-os muitas vezes a misturar-se com o povo: nos mercados, nas ruas, nos comícios. Contactos cheios de cor, alegria e muita saliva popular que se vai colando nos rostos dos políticos, suor que se vai colando nos seus corpos, beijo após beijo, abraço após abraço, aperto de mão após aperto de mão. Quando os políticos estão com o povo os políticos são do povo, os políticos são o povo. Dançam, cantam, riem, fazem o pino se for preciso. Mas, ao mesmo tempo, estão envolvidos numa luz sobrenatural que os protege, uma luz invisível que os encerra num plano exterior à cena. Como se o corpo que se mistura com o povo fosse um duplo de si mesmos, ficando a sua verdadeira natureza salvaguardada numa dimensão inacessível ao povo que cai na ilusão de pensar que beija, abraça e aperta o homem verdadeiro.
O que somos nós, o povo, sobretudo em épocas de campanha eleitoral, nas ruas, nos mercados, nas feiras, nos comícios, senão bêbedos embevecidos que se sentem importantes pela presença mágica do nosso protector, aquele de quem esperamos alegrias? E o pior, mas mesmo o pior, é que nunca conseguimos aprender com as ressacas.