12 maio, 2014

CALIBAN, FILHO DA DEMOCRACIA

Joseph Sterling | série The Age of Adolescence, 1959-1964

Fiz hoje uma viagem de comboio. Dois minutos antes de chegar ao meu destino, dirigi-me para a zona de saída. A carruagem ia cheia e ao atravessar o corredor acabei por ir olhando para os passageiros pelos quais ia passando. A esmagadora maioria dos passageiros, jovens universitários, estava a mexer num telemóvel, quer a enviar sms, quer a jogar. Fosse esta a primeira vez que tal acontecia e poderia tratar-se de um acaso. Acontece que é a norma. Em suma, a esmagadora maioria das pessoas que viajam num comboio não lê livros, jornais ou revistas. Mexe num telemóvel, seja para jogar, seja sabe deus para escrever o quê. Pode parecer uma associação meio parva mas esta situação lembrou-me esta passagem de um texto escrito por Trotsky, em 1923, chamado Literatura e Revolução.  Aviso desde já que é preciso esfregar os olhos e respirar fundo três vezes antes de a ler:

"Até a vida puramente psicológica se tornará objecto de experiências colectivas. A espécie humana, o Homo Sapiens coagulado, entrará mais uma vez num estado de transformação radical e, pelas suas próprias mãos, tornar-se-á objecto dos mais complicados métodos de selecção artificial e de treino psicológico(… ). A construção social e o autodidactismo psicofísico tornar-se-ão dois aspectos de um mesmo processo. Todas as artes – literatura, teatro, pintura, música e arquitectura – darão uma forma maravilhosa a esse processo. Mais correctamente, a concha em que será encerrada a construção cultural e auto-educação do homem comunista desenvolverá todos os elementos vitais da arte contemporânea ao mais alto nível. O homem tornar-se-á incomensuravelmente mais forte, mais sábio e mais subtil; o seu corpo tornar-se-á mais harmónico, os seus movimentos, mais rítmicos, a sua voz, mais musical. As formas de vida tornar-se-ão dinamicamente dramáticas. O tipo do homem médio elevar-se-á à altura de um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx. E acima desta cordilheira elevar-se-ão novos picos." 

Podia trazer este texto por se tratar de uma relíquia histórica, divertindo-me com o aspecto hilariante da coisa. Ou então para ridicularizar utópicos desvarios e ideológicos lirismos em noites de revelação mística que fazem parecer Trotsky uma Santa Teresa de Ávila com o coração trespassado pela seta de um anjo vermelho. Mas o comunismo está morto e enterrado e não vale a pena falar mais nisso.
O que me interessa neste texto é um possível ponto de partida para uma comparação entre este ideal comunista, marcado pelo conceito de sublime aplicado a uma realidade social e até antropológica, e a democracia liberal, sistema que encara com pluralismo e flexibilidade os valores e expectativas a respeito do que se considera social e culturalmente desejável.
As democracias modernas gabam-se (e com razão) de terem atingido os níveis mais elevados de desenvolvimento humano. Há, porém, sinais preocupantes que podem levar a pensar numa acentuada regressão. E não estou a pensar neste caso numa regressão económica. Penso no desenvolvimento espiritual e cultural de que fala Trotsky. Há hoje diversos factores de natureza social que contribuem para um empobrecimento cultural dos seres humanos. Em rigor, não se pode dizer que seja culpa da democracia. A democracia não é causa de nada. Há fenómenos sociais e culturais que decorrem de movimentos espontâneos e livres das pessoas. Mas uma coisa é a democracia, ao contrário do comunismo, do fascismo, do nazismo, não ser dada a processos de engenharia social marcados por uma agenda ideológica delirante, outra coisa é a condescendência da democracia perante movimentos sociais e culturais de massas, expressa pela legitimação institucional desta tendência que podemos facilmente constatar por um ensino cada vez mais pobre e menos exigente, tanto ao nível primário, como secundário ou universitário. Ou seja, existe hoje uma cultura do facilitismo cuja agenda institucional torna a democracia sua cúmplice, que não só impede o cidadão comum de chegar a Aristóteles ou Göethe, como ainda contribui para o fazer descer ao nível de Caliban.
É claro, felizmente, graças a deus, que nunca foi ambição das sociedades democráticas elevar pessoas comuns ao nível de um Aristóteles, de um Göethe ou de um Marx. O problema não está aí. O problema está no facto de, após tantas décadas de desenvolvimento, as nossas sociedades democráticas verem cada vez mais as pessoas comuns transformadas em Calibans. É verdade que Caliban nunca será filho da democracia do mesmo modo que, para Trotsky, os futuros Aristóteles, Göethe e Marx seriam filhos do comunismo. A paternidade, todavia, não importa. Pais permissivos ou ausentes não serão melhores do que um pai autoritário.