25 maio, 2014

A ESTUPIDEZ RADICAL

Brassaï | Expresso Roma-Nápoles, Homem a Dormir, 1955

Nos anos 40 do século passado, Isaiah Berlin saiu filósofo de Oxford para os Estados Unidos, tendo regressado depois a casa como historiador das ideias. A fractura entre as duas identidades deu-se na viagem de avião sobre o Atlântico. Devido a problemas de pressurização teve de fazer grande parte da viagem com as luzes apagadas e uma máscara de oxigénio. Dizia ele que numa situação dessas a única coisa que podia fazer era pensar. E foi então nessas horas de escuridão sobre o vazio do Atlântico que pensou abandonar a filosofia para se dedicar à história das ideias, deixando perplexos os seus colegas de Oxford.
Eu não tenho o hábito de fazer viagens de avião entre Nova Iorque e Londres com as luzes apagadas mas tenho o hábito de me deitar com as galinhas, o que, nada tendo de errado, tem o efeito perverso de por vezes acordar às 4 ou 5 da manhã já pronto para conquistar o mundo. Mas como nunca perco a esperança de poder vir a dormir mais um pouco, em vez de acender a luz para ler, gosto de ficar na escuridão a pensar, seja lá o que isso possa significar no interior de circunvoluções tão secas e carcomidas como as minhas. Numa situação destas pensa-se em tudo e mais alguma coisa. Esta noite, mais exactamente pelas 4 e 20 da manhã, dei comigo a pensar sobre o que tinha dito aqui a respeito da minha estupidez. Mais concretamente, pensar se o facto de ser estúpido em montes de situações faz de mim uma pessoa  mesmo estúpida. Porque uma coisa é dizer com ar blasé que se é muitas vezes estúpido, outra é alguém assumir-se propriamente como pessoa estúpida. Resolvi, pois, pensar muito a sério no problema, com genuína gravitas e elevado sentido introspectivo. 
Dizia eu que sou bastante estúpido em montes de coisas. Eu, que sou um céptico, lá nisto não tenho a menor dúvida. Ora bem, à primeira vista, fazer coisa estúpidas implica ser mesmo estúpido. Sim, do mesmo modo que não faz sentido um tipo roubar e dizer que não é ladrão, matar e dizer que não é assassino, sei lá, fazer política e dizer que não é político, também parece não fazer sentido dizer que se fazem coisas estúpidas e não ser estúpido.
Mas a coisa é mais complicada do que possa parecer. Uma pessoa pode andar montes de vezes constipada mas isso não faz dela uma pessoa constipada. Ninguém diz que "é" uma pessoa constipada, diz-se, sim, que se "está" constipado. Em suma, estar muitas vezes constipado não faz de nós seres constipados, como, por exemplo, "ser" diabético ou "ser" hemofílico. Bingo! Deve ter portanto que ver com a duração. Mas, bolas, será mesmo coisa de duração? Vejamos o Manuel Palito. O Manuel Palito tem mais de 60 anos e só matou uma vez na vida. Ora, isso basta para fazer dele dizer um assassino. Não vamos dizer que o Palito "está" assassino só porque matou uma vez. Não, o homem "é" mesmo um assassino, não sendo preciso um 12º ou 13º crime para chegar à conclusão de que é um criminoso. Portanto, também não é pela duração que lá vamos, continuando eu desgraçadamente confuso em relação à minha identidade.
Entretanto, após mais meia dúzia minutos de aguda e profunda reflexão, concluo que o jogo entre ser ou não ser estúpido pode acabar em empate técnico. Como assim? Pronto, eu posso fazer muitas coisas estúpidas, isso é óbvio e nem vale a pena chutar para canto. Mas também é verdade que faço muitas coisas que não são estúpidas. Não me sinto estúpido por ir a pé para a escola, não me sinto estúpido por não fumar, enfim, não me sinto estúpido por ouvir música enquanto passo roupa a ferro. Só que não existe o conceito de "não estúpido" por não se fazerem coisas estúpidas. Ninguém diz que conhece alguém "não estúpido", ou elogia alguém como sendo "não estúpido" por ter feito uma coisa "não estúpida". Porquê? Porque consideramos normal não fazer coisas estúpidas. Todavia, sendo nós humanos e não entidades perfeitas e imaculadas, também é normal fazermos coisas estúpidas. Ou seja, ser estúpido é tão normal como não ser estúpido. Só que, se na verdade é normal ser estúpido, isso faz com que naturalmente deixemos de ser estúpidos. Seríamos estúpidos se fizéssemos o que não podemos não fazer. Só que no ser humano trata-se de uma remota possibilidade. Se há coisa humana é precisamente fazer o que podemos (devemos) não fazer mas ainda assim fazemos. Creio por isso que seremos todos intrinsecamente estúpidos, o que implica então não sermos estúpidos.
Inspirado numa das muitas metáforas de Kant, um dos livros mais importantes de Isaiah Berlin chama-se The Crooked Timber of Humanity. Como sentir-me estúpido perante tamanha evidência filosófica? Apaziguado, voltei a adormecer, para voltar a acordar a mesma pessoa.