07 maio, 2014

A CÓPIA

Johan Hagemeyer | Jane Bouse, 1938

Calhou ler uma coisa sobre o Requiem de Fauré e comecei a sentir um ligeiro ataque de angústia. Eu tenho-o e já o ouvi duas ou três vezes. Mas ao pensar nele naquele momento foi como se nunca o tivesse ouvido. Pensei também então como é triste possuir uma obra em casa, tê-la ouvido várias vezes, saber que gostei dela mas, depois, é como se nunca a tivesse ouvido. 
Para que tal aconteça talvez ajude não ter o cd original mas, como no interior da caverna platónica, uma cópia manhosamente identificada com um marcador. Aliás, tenho muitas cópias e até cópias de cópias. Ora, uma obra musical não tem menos valor pelo facto de ser ouvida através de uma cópia tal como um soneto de Camões não vale menos numa fotocópia fatela do que numa luxuosa e rara edição antiga. Porém, ao contrário de outros tempos, a facilidade com que hoje acedemos a certos bens, ou a quantidade de bens a que facilmente acedemos, acaba por fazer mossa na nossa fruição deles. Viajemos até ao ano de 1900. Não há aparelhagens, não há televisão, não há rádio, não há auto-estradas, não há carros, não há Internet. Em 1900 já existia o Requiem de Fauré, mas quem o poderia ouvir? Só quem vivesse num sítio onde uma orquestra o tocasse, tendo a sorte de de ser precisamente naquele sítio e precisamente naquele momento. Depois, o vazio, de novo a ida do Requiem para as catacumbas do silêncio até à próxima orquestra naquele sítio e naquele momento, o que estaria muito longe de acontecer várias vezes ao longo de uma vida. Muito provavelmente, as pessoas que tiveram o privilégio de o ouvir, tê-lo-ão ouvido apenas uma vez na vida. Hoje, podendo ouvi-lo num pedaço de plástico identificado apenas com um marcador de cd's, tornou-se num objecto de consumo irrelevante e simbolicamente desvalorizado. E quem diz o Requiem de Fauré diz quase tudo o que podemos comprar a consumir, ou ver um museu à pressa para cumprir o programa.
Entretanto, voltei a ouvir o Requiem mas com base no seguinte exercício: ouvi-lo como se fosse a última vez que o iria fazer. Claro que daqui a alguns anos já não saberei reproduzi-lo mentalmente. Nós esquecemos os sons como acabamos por esquecer um texto que lemos. Mas, tal como acontece com  um texto que não memorizámos mas sabemos falar sobre a experiência de o ter lido, de certeza que irei lembrar-me melhor da experiência  de ouvir o Requiem do que quando há dias vi a referência a seu respeito.