04 abril, 2014

SEX BOMB

Christer Strömholm | Gina and Nana, Place Blanche, 1963

Tendo já ultrapassado o meio século de existência, pouca coisa haverá no mundo que me surpreenda, mesmo uma notícia como esta.
Sejamos justos com a estupidez: ela não é toda igual. Tal como a inteligência se pode dispersar por terrenos tão diferentes, muitos deles pantanosos, também a estupidez pode assumir diferentes graus, identidades e variações no que diz respeito às consequências. Pouca coisa haverá mais estúpida do que avaliar o quociente sexy das portuguesas, das australianas, das colombianas ou das sauditas. Ora, perante este tipo de estupidez limito-me a encolher os ombros. Se eu reagisse emocionalmente sempre que a minha nua e vulnerável inteligência fosse coberta pelo manto opaco da estupidez, há muito que me teria suicidado. Lá me vou destapando e, graças a isso, mantendo a suficiente sanidade mental que me permite viver a vida com algum pundonor.
Mas se esta avaliação idiota se tornar numa ideologia dominante de acordo com a qual todos os seres humanos deverão tornar-se sexy? Não fisicamente, mas como pessoas nas suas vidas sociais e profissionais. Ora, é precisamente isso que acontece com a estúpida ideologia do empreendedorismo. O problema é que não se trata apenas de uma inócua estupidez como a anterior, na qual chafurda apenas quem já foi previamente contaminado pelo pernicioso vírus da estupidez. Trata-se, sim, de uma totalitária e fascizante estupidez.
Sempre houve pessoas empreendedoras e ainda bem que as houve. Foi, e é graças ao seu espírito empreendedor, ao seu dinamismo, inteligência, criatividade e, em muitos casos, capacidade de arriscar, que as sociedades e as economias evoluíram, com evidentes benefícios para todos nós. Outra coisa é impor o empreendedorismo como padrão de comportamento, exilando nos bidonvilles da anormalidade todos aqueles, que são a maioria, que não nasceram para ser empreendedores, do mesmo modo que a grande maioria das pessoas não nasceu para ser um grande atleta, um grande cientista, um grande político ou um grande artista. A maior parte das pessoas nasceu para ser normal e ninguém tem de se sentir culpada e impotente por ser normal. E ser normal, neste sentido, já pressupõe ser competente, responsável e brioso, qualidades muito longe de poderem ser desprezadas.
A ideologia empreendedorista não inventou o empreendedorismo. Lembrou-se apenas de impor a excepção à normalidade, elevando muito mais a fasquia que as pessoas normais deverão ser capazes de ultrapassar para poderem continuar a sentir-se normais. Uma das naturais consequências dessa promiscuidade que faz com que todos nós devamos ter uma espécie de sex appeal empreendedor, é fazer com que nos sintamos mais inferiores do que seria suposto, e talvez por isso mais facilmente explorados.
Felizmente, uma mulher portuguesa não se sentirá inferior a uma argentina só que porque um estúpido mapa às corzinhas lhe dá essa informação. As pessoas normais, perante este tipo de estupidez, sabem reagir com sensatez e indiferente descontracção. Duvido, porém, que a exigência de uma pessoa tornar-se laborialmente sexy, intelectualmente sexy, socialmente sexy, qualidades incontornáveis de uma sexy ideologia empreendedora que transforma o mundo e a vida num casino onde o sucesso é afrodisíaco, não possa ter efeitos nefastos na relação entre cada pessoa e a comunidade a que pertence.
Se Cervantes regressasse ao mundo teria muito para contar. Desta vez, porém, juntando Quixote e Sancho Pancha numa mesma esquizofrénica personagem.