06 abril, 2014

SERENIDADE



Última aula, boa Páscoa para todos, descansem, não comam muitas amêndoas, la, la, la, mas antes disso a inevitável auto-avaliação exigida por lei. De repente, uma cena digna do mais puro far west: mais rápidos do que as próprias sombras, vinte e tal pistoleiros sacam das mochilas vinte e tal máquinas de calcular violentamente disparadas por implacáveis dedos ávidos de acção. Fosse eu um tipo dado a românticos delírios e ter-me-ia imaginado, de pala no olho, num plateau, dando instruções a um grupo de bravos heróis a prepararem-se para trazer de volta uma inocente desaparecida em território inimigo.
Mas como graças às sapiências do envelhecimento fui refinando cada vez mais as minhas parvoíces, e um moinho de vento passou a ser simplesmente um moinho de vento um moinho de vento um moinho de vento, o meu espírito limitou-se a invocar o espectro de Martin Heidegger no já longínquo ano de 1955, ao proferir o seu discurso público na celebração do 175º aniversário do compositor Conradin Kreutzer, em Messkirch, terra que o viu nascer.
Diz o filósofo que, por causa da técnica, vive-se num tempo (chama-lhe era atómica) em que se fica sem-pensamentos com demasiada facilidade, estando o homem desse tempo em fuga de pensamento. Ele não anatematiza a técnica, longe disso. Chega mesmo a dizer que a técnica se tornou imprescindível e que seria um disparate rejeitá-la. O seu problema é apenas com o predomínio de um pensamento que ameaça tornar-se único: o pensamento que calcula. Que, em rigor, não é pensamento.
Durante toda a minha vida avaliei alunos sem máquina de calcular e complexas grelhas de Excel cheias de fórmulas. Como é que dava os noves, os dez, os quinzes ou os dezoitos? Olhava para as notas dos testes, olhava para os alunos, pensava, olhava, pensava, olhava e, finalmente, pensava: este aluno tem cara de 12, aquela tem cara de 16. Hoje, é uma grelha de Excel que me manda dar as notas. Enquanto antigamente eu reflectia sobre se devia dar positiva ou negativa a um aluno, hoje, dou negativa se a média final, que inclui todas as variáveis, me der 9.4, mas darei positiva se a média for 9.5.
Eu era como um agricultor que pegava num melão, apalpava-o com as mãos, fazia-o girar várias vezes e dizia: está maduro e pesa cerca de 2 quilos. Ou dizia: está verde, precisa de mais tempo. Hoje, não preciso de tocar nos melões pois tenho uma sofisticada máquina que os pesa e me diz se estão verdes ou maduros, limitando-me apenas a puxar o informativo ticket que dela sai como nas balanças das farmácias.
Dir-me-ão que assim é mais objectivo, mais transparente e mais justo. Duvido. E duvido porque isso é esquecer tudo o que houve de subjectivo e pessoal até chegar à classificação final que se revela magicamente no último quadradinho da grelha, qual matemática hierofania.
Deixar a decisão final a uma máquina pode ser útil e eficaz. Mas representa expulsar-me do momento mais solene e importante. Representa deixar de ser o juiz que fui durante tantos e tantos anos, sem que alguma vez sentisse estar a ser injusto, mesmo tendo à minha frente uma aluna que chora porque vai chumbar por eu lhe dar negativa e a quem explico por que tenho de dar negativa.
Amanhã, às 8.30, quando começar a cantar as notas, vou deixar de me sentir o juiz que sempre fui e gostei de ser, para me tornar um amanuense protegido por mangas de alpaca, que fala como se fosse um mero altifalante. Foi nisto que nos transformaram nos últimos anos e foi nisto que, pelos vistos, gostámos de nos transformar. Alunos e professores, todos calculamos. Com amanuense serenidade. Com uma fria, atómica e calculista serenidade.