03 abril, 2014

PORTUGATÓRIO

Joshua Benoliel | s/d (inícios do século XX)

Dizia eu que comecei a interessar-me por teologia quando comecei a interessar-me por filosofia medieval. Devo esse interesse a três pessoas: ao padre Cerqueira Gonçalves, cujas aulas conseguiam tornar saborosos e estimulantes os pensamentos de S. Gregório de Nissa, S. Agostinho ou de S. Boaventura, a Etienne Gilson, especialista em Filosofia Medieval, e também a Jacques Le Goff, pelo modo como me deu a ver a Idade Média, da qual eu fugia como um iluminista das trevas. Ah, o Nome da Rosa, sim, Guilherme de Baskerville vs Jorge de Burgos! Soberbo, é verdade, mas apenas a cereja (uma bela, suculenta e carnuda cereja) em cima de um bolo com o qual os meus neurónios já se haviam lambuzado.
O grande historiador francês morreu há dias, tendo os obituários invocado o seu estudo sobre o impacto do Purgatório na transformação da mentalidade medieval. E se anteontem eu confessava o meu fascínio pela figura do Espírito Santo, a morte do historiador levou-me de novo a lembrar a não menos fascinante questão do Purgatório.
Uma das dimensões mais estimulantes da teologia e da literatura religiosa é a sua riqueza conceptual. A filosofia constrói racionalmente conceitos, a ciência descobre conceitos, a teologia e a religião imaginam conceitos. Actividade cuja inestimável riqueza deve ser enaltecida, não se veja por isso qualquer desprezo nesta associação. A imaginação é uma faculdade tão nobre quanto a razão. Muito bem, os conceitos da religião podem ser ousados, falsos, ilusórios, racionalmente arbitrários ou até mesmo aparentemente ridículos e absurdos. So what?, como diria João Carlos Espada. Resta saber quantos conceitos da Filosofia também o serão. E alguém olha de soslaio para a arte pelo facto de ser construída sobre os alicerces da imaginação? A imaginação pode não pensar, mas dá a pensar. É, por isso, extremamente generosa. A ciência ensina-nos coisas, a filosofia tenta ensinar-nos coisas. A teologia e religião não ensinam nem tentam ensinar mas ajudam a pensar. 
Olhemos para o Guernica, de Picasso, a Parábola dos Cegos, de Bruegel ou O Salão, de Otto Dix. Ensinam alguma coisa? Não ensinam nem há ali, felizmente, ao contrário do que acontece em tanta arte e instalação e outras lixeiras contemporâneas, qualquer tipo de pensamento. Mas nós olhamos para eles e esse olhar ajuda a pensar. Os artistas imaginam e nós somos anões que, saltando para os seus ombros, conseguimos ver mais longe.
Ora, é precisamente isso que se passa com ideias como a de Purgatório e uma miríade de imagens, parábolas, símbolos, metáforas, narrativas, poemas que vamos beber às frescas fontes da religião e da teologia. Eu acredito na existência do purgatório? Não acredito eu e não acredita ninguém. Mas quem diz que aquilo é para acreditar? Isso, porém, não nos impede de partir da sua enorme versatilidade conceptual para melhor explorarmos a verdadeira textura do real, munidos de uns óculos especiais que nos fazem perceber que o nosso olhar natural é mais distante e ingénuo do que poderíamos supor.
No caso do Purgatório, podemos aproveitar a sua versatilidade conceptual num sentido antropológico para melhor compreendermos a natureza humana e o sentido da nossa existência. Não é, todavia, para aí que agora estou virado. O que verdadeiramente me interessa agora é aplicá-lo a Portugal, pelo modo como a existência do Purgatório é representada pelos imensos pecadores portugueses, tendo como inevitável e lastimável consequência a própria identidade purgatoriana do país.
Se é verdade que todo o ser humano é naturalmente pecador, não o será menos haver países onde pecar é mais fácil do que noutros, sendo Portugal disso um superlativo exemplo. Ora, um Além que estivesse apenas dividido entre Céu e Inferno seria sempre um pesadelo para os pecadores, uma vez que a impossibilidade de entrar no reino dos céus implicaria sempre uma miserável condenação ao inferno do Inferno. Neste sentido, a esperança no Purgatório é uma espécie de raio de sol que ilumina a escuridão do pecado no dia do Juízo Final.
Vejamos, por exemplo, um ministro, um autarca, um banqueiro, um advogado, um médico, um administrador ou um empresário corruptos. Ou todos aqueles portugueses que conseguem fugir aos impostos, como não é, infelizmente, o meu caso. Ou todos aqueles que conseguem aproveitar-se da coisa pública para benefício pessoal. A sua consciência não os engana. Os malandrecos sabem bem as maldadezinhas que fazem, as quais, prejudicando a coisa pública, prejudicam todos os portugueses. Mas depois pensam assim: "Que diabo (outro conceito profícuo), eu não matei ninguém, não violei ninguém, não sou pedófilo, não posso ser acusado de violência doméstica, não andei a assaltar bancos de cara tapada e caçadeira na mão, enfim, não tenho as mãos manchadas de sangue. Pronto, não sou um menino de coro, mas também não sou suficientemente patife e miserável para ter de suportar as ígneas e sulfurosas chamas do Inferno. Aqui para mim que ninguém me ouve, eu vou mas é para o Purgatório. Depois, com tanto assassino violento que há para aí e com quem Deus tem de se preocupar, com um bocado de sorte acabo por escapar ao mais miserável de todos os destinos".
O Purgatório é por isso uma espécie de paraíso dos pecadores. E se a relação com ele fosse apenas individual, grande mal não viria ao país. O problema é que por causa dessa gestão individual do Purgatório, o próprio país se torna um Purgatório. A gente olha para Portugal e vê logo um Purgatório. Não é o Inferno da Serra Leoa ou do Zimbabwe mas também estamos muito longe das bem-aventuranças celestes das quais gostaríamos de poder usufruir. Não somos nem deixamos de ser. Somos assim uma espécie de cepa torta da qual nada de direito alguma vez se fará. Vivemos à espera mas sabendo também que nunca iremos ter aquilo que esperamos. Não sofremos como um somali mas, como diria o grande O'Neill, há uma dor portuguesa tão mansa e quase vegetal que faz de Portugal, como diria de novo o poeta, o remorso de todos nós. Embora, e agora digo eu, uns tenham bem mais razões para ele do que outros. Eu, infelizmente, faço parte dos outros, o que faz de mim ainda mais português.