23 abril, 2014

O PASSADO É UM PAÍS DISTANTE

Jacob Riis | 1890's

Aula de Psicologia. Tema: a conação. Sempre que ouço a minha própria voz a dizer "c-o-n-a-ç-ã-o", sinto uma mistura de temor e vergonha devido ao seu impacto fonético-semântico num espaço onde é suposto ser o professor o guardião da ordem e da moral.
Mas os alunos não reagiram. E estou a falar de jovens normais, não de jovens que sejam uma excepção à regra.  Nada de risos contidos, sorrisos subtilmente maliciosos, cúmplices olhares trocados entre eles ou uma piada parva vinda de um aluno armado em engraçadinho. Nada. E tenho de confessar que fico perplexo com esta amazónica indiferença e naturalidade perante uma situação onde uma possível instalação da desordem, do desvio, do ilícito, é por de mais evidente. A mesma indiferença e naturalidade que me deixa igualmente surpreendido quando digo para abrir o livro na página 69 ou, como aconteceu em várias turmas recentemente, ao ditar o sumário, dizer que se trata da lição nº 69.
Os risos contidos a custo, os sorrisos subtis mas maliciosos, os olhares cúmplices trocados entre eles ou a tal piada do aluno mais engraçadinho, que ficam agora guardados nos armários da indiferença, eram, anos atrás, nas mesmas circunstâncias, um clássico da sala de aula. Noutro contexto, quando fui à inspecção militar foi-nos atribuído um número com o qual éramos identificados ao longo dos dois dias em que por lá andávamos. O rapaz a quem calhou atribuírem o número 69 tornou-se espontâneamente uma espécie de bobo da corte, com quem todos se metiam, tendo passado os dois dias a ser alvo de chacota, fosse mais jovial, fosse mais ácida.
Imaginemos agora que alguém escreve num jornal a frase: "Hoje, estive uma hora a falar ao telemóvel com X".Toda a gente se lembra do tempo em que apareceram os primeiros telemóveis em Portugal. Por serem uma luxuosa novidade, coisa modernaça e acessível só a alguns, havia pessoas que faziam tudo para se exibirem com eles. Falavam alto e escolhiam sítios com muita gente para o brilho do sucesso poder ser maior. Vamos supor então que a frase tinha sido escrita e lida nesse tempo. Sendo assim, muitas pessoas iriam entendê-la como acto exibicionista e de grande vaidade. Hoje, porém, depois de o telemóvel se ter transformado num objecto tão vulgar quanto um frigorífico, a mesma frase teria o mesmo tipo de impacto de uma outra como: "Hoje, ao parar o carro num semáforo..." ou "Hoje esqueci-me de tirar o peixe do congelador". Ou seja, nenhum.
Suponhamos que, 300 anos depois, um historiador ao pesquisar arquivos de jornal, iria dar com a frase. Ora, 300 anos depois, muito dificilmente o historiador iria conseguir perceber o seu verdadeiro sentido. Hoje, porém, entenderíamos a diferença entre o seu sentido de há 20 anos e o actual: a motivação e a experiência interna de quem a escreveu, o seu real objectivo. Para um historiador, 20 anos não é nada. Mas é muito tempo para quem vive e experiencia um pedaço de 20 anos nesse grande rochedo a que chamamos "época histórica", seja a Antiga Grécia, o Feudalismo, o Antigo Regime, as Revoluções Liberais, o Comunismo ou o Fascismo . 
O que tem o historiador à sua frente? Documentos que lhe mostram factos objectivos, mapas, gráficos e toda uma parafernália estatística que fazem as delícias de quem transforma o passado dos seres humanos numa espécie de laboratório químico. Claro que os factos, as datas, os relatos de guerras, tratados, as crises, as migrações, todas essas coisas são verdadeiras e ajudam a perceber o que é viver em Roma ou Cartago em 357 D.C, Paris em 1215, Londres em 1789, Moscovo em 1920, Berlim em 1929 ou Lisboa em 1948. Abordagens da realidade histórica através de conceitos cuja objectividade, enquanto adequação à realidade empírica, como no caso de um químico, não é posta em causa. Porém, sabem a pouco. O químico percebe muito de moléculas ou o geólogo de minerais porque as moléculas e os minerais são o que são e nada mais há a dizer. As moléculas e os minerais não têm vida interior, não têm sentimentos, emoções, paixões. Nada. Uma molécula ou um mineral não riem ou ficam impávidos perante a sonoridade de uma frase, nem falam através de um telemóvel. Mas as pessoas não são moléculas e minerais.
Nenhum futuro historiador poderá ter alguma vez a minha percepção, ali, dentro daquela sala de aula, naquele preciso momento, do que é viver uma certa experiência social e psicológica em 2014 e uma outra em 1986. Uma nesga de tempo que escapa, invisível, ao olhar do historiador. A relação com o passado será sempre o mesmo tipo de relação que uma pessoa tem perante uma expressão idiomática de uma língua que domina apenas gramaticalmente. Um inglês pode ter aprendido a falar muito bem a nossa língua. Mas, chegado a Portugal, se ouvir "Ir aos arames" ou "Este já cá canta", irá ficar a apanhar bonés. A História é, neste sentido, uma espécie de gramática do passado mas à qual escapa a vivência concreta da língua falada pelas pessoas de carne e osso. O passado, por muito que tentemos aprender a sua língua, escapar-nos-á sempre por entre os dedos dos conceitos científicos.