28 abril, 2014

NO REINO DAS SOMBRAS

Jean Luc Godard | Je Vous Salue, Marie [fotograma]

Quando eu era novo e acreditava ainda nas Luzes de Paris apontadas sobre o mundo como potentes holofotes mentais, a religião irritava-me pelo modo intencionalmente displicente como se alimentava do absurdo. Hoje, é desse absurdo que gosto cada vez mais, e que me faz estar pacificado com o Credo quia absurdum, de Tertuliano. Confesso que não gosto de viver às escuras e da ideia de o mundo poder chegar ao fim como no fim do filme O Cavalo de Turim. Daí a ciência nos ajudar a viver funcionalmente melhor, tanto a explicar as leis da Física como a dar à humanidade os micro-ondas que fazem as nossas alegrias mais pragmáticas, para os quais estou muito longe de me fazer rogado. Mas é a religião que nos dá Deus como um escritor meio excêntrico e alucinado que faz da vida uma doce ficção e com um sentido esteticamente apurado. A ficção que a arte se esforça por também construir, sendo a religião, por isso, uma parte da própria arte. E enquanto assim for nunca faltará luz ao mundo. Uma luz crepuscular e maravilhosa da qual irradiam as sombras que nos impedem de cegar como mosquitos atraídos pelo excesso de luz, que voam velozmente e sem cerimónia, mas sem saberem porquê.