24 abril, 2014

NO OUTRO LADO DO ESPELHO

Elliott Erwitt | North Carolina, 1950

Fui há tempos cortar o cabelo. Quando saí do salão parecia-me tudo bem mas, no dia seguinte, ao olhar para o espelho, apercebo-me de duas irritantes assimetrias no cabelo. Uma, entre os lados direito e esquerdo na zona posterior da cabeça, a outra, nas partes do cabelo que ficam por cima das orelhas.
Admito que não se tratava de um caso grave, nada que me impedisse de sair à rua sem temer os risos e escárnios alheios. Sinceramente, sabia que ninguém iria reparar nessa pequena mácula capilar. Mas reparava eu, e de um modo que começava a irritar-me. Ponderei por isso voltar ao salão para que a minha cabeleireira (sabe deus o que me custa dizer «a minha cabeleireira») dedicasse uns 10 singelos minutos a corrigir a irritante imperfeição. Mas logo pensei no ridículo que seria lá voltar de propósito por causa de uma minhoquice sem importância, indigna de um homem sério e respeitado como eu. Senti um arrepio cá dentro só de pensar na possibilidade de ser visto como criatura caprichosa, mesquinhenta e cheia de picuinhices, um vaidoso de merda, um ridículo narciso obcecado com a profanação da sua imagem no espelho da casa de banho do meu T2, egocêntrico, mariquinhas pé de salsa. Não. Não, não e não. Nem pensar em juntar o opróbrio de dizer «a minha cabeleireira» à possibilidade de ser vilmente epitetado.    
Foi um daqueles momentos em que nos sentimos implacavelmente existencialistas. Que fazer? Entrar de novo no salão seria admitir que me sinto demasiado importante para poder viver com certas imperfeições. Que me levo de tal modo a sério que sou rapaz para voltar de novo ao salão só para corrigir duas imperfeições que em nada comprometiam a minha dignidade psicológica, social, moral ou estética. Eu? Um cinquentão, pai de filhos, um intelectual, entrar num salão de cabeleireira para implorar, com mal disfarçado desespero, duas correcções no meu corte de cabelo? Nunca. Mas como viver então com essa mácula capilar? Como suportar o peso de enfrentar todas as manhãs o espelho e encontrar esse outro de mim que desejo liminarmente rejeitar?
O melhor remédio é mesmo rir da nossa estupidez por nos acharmos mais importantes do que efectivamente somos, rir das nossas imperfeições, aprender a viver com elas, a olhar para elas com indulgente bonomia. Se sairmos à rua com um corte de cabelo menos feliz, acreditamos, estupidamente, que o mundo vai parar para se rir de nós. O que pode dar vontade de rir é pensarmos assim. Um corte de cabelo imperfeito é desagradável? É. No fundo, é um defeito, uma pequena desordem numa harmonia que gostaríamos de manter sempre intocável. Mas nós somos naturalmente imperfeitos e aprender a bem viver é também aprender a saber viver com essas imperfeições.
Que importância tem o nosso cabelo na ordem do mundo? Que importância temos nós, não o raio do cabelo mas nós, nós mesmo? Claro que se acharmos que somos o centro do universo e que o mundo gira à nossa volta, qualquer nódoazinha na nossa camisa, uma camisinha mal passada, um colarinho já a querer estragar-se, soa a um drama imenso. Mas não é. Uma camisa mal passada é apenas uma camisa mal passada. E não é por estar mal passada que nos devemos passar.  No que diz respeito ao meu cabelo, deixei de reparar nele. Existe muito mundo para ver para além do meu espelho. E o que o meu espelho me dá a ver é apenas uma ínfima e insignificante parte desse mundo no qual entrei mas do qual rapidamente irei sair.