01 abril, 2014

ESPÍRITO SANTO


Perto de mim está um homem, formalmente vestido, isto é, de fato completo, gravata e britaníssima gabardina, estudando uma pauta musical em folhas A4. Percebo que estuda, pelo tempo que demora em cada folha e pelo modo como volta atrás para repetir a leitura. Não sou coscuvilheiro, não costumo ligar a quem está em meu redor, mas o facto de se tratar de uma pauta musical, com todos aqueles elegantes hieróglifos que remetem para uma linguagem acessível a alguns eleitos, chamou-me a atenção. Até que acabei por descobrir, graças às letras grossas do título, que se tratava da popular canção Tia Anica de Loulé
Não vou dizer que fiquei desiludido com a descoberta, pois só se desilude quem se ilude e eu não me iludi com nada. Corrijo: iludi-me no modo como fui automaticamente levado a pensar que se tratava da pauta de uma qualquer composição erudita. Trata-se, porém, de uma ilusão, digamos, epistémica, da ilusão de alguém que desenvolveu uma falsa crença, motivada pelo ar formal e elegante do homem e por uma natural inclinação para associar música escrita a música erudita, e não uma daquelas ilusões psicológicas que estão na origem de frustrações e desânimos quando se revelam infundadas. Nada de anormal, pensei o que talvez a maior parte das pessoas teria pensado naquela situação. 
Entretanto, pensei no facto de, para quem não sabe ler música, como é o meu caso, a pauta de uma música como Tia Anica de Loulé não se distinguir de uma sinfonia de Mahler. É estranho, mas não tem nada de inquietante, explicando-se isso pela minha ignorância musical. O que já não deixa de me espantar, e isso já nada tem que ver com ignorância ou sabedoria, é o facto de uma música tradicional portuguesa como Tia Anica de Loulé, uma composição clássica de Bach, uma composição contemporânea de Messiaen ou uma canção pimba de Rute Marlene, dependerem apenas de sete notas musicais. Da combinação de sete notas musicais. O facto espantoso de apenas sete singelas notinhas poderem produzir obras musicais tão diferentes entre si, estando na origem de experiências psicológicas, espirituais, estéticas e até físicas completamente diferentes.
Comecei por pensar que este mesmo espanto se devia à minha ignorância de burro a olhar para um palácio que o transcende. Mas logo de seguida dirigi-o para um terreno que conheço e domino bem e nem por isso se atenuou: a escrita. Eu sei ler e escrever. No entanto, é estupefacção o que sinto quando penso que será sempre por uma combinação das mesmas letras do alfabeto que todos os textos são escritos e lidos. As letras que serviram a Shakespeare para escrever uma peça de teatro, serviram a Eça para escrever um romance, sendo as mesmas que usou Pessoa para escrever um poema, ou as mesmas letras ainda com que se escrevem frases na parede uma casa de banho pública, um artigo de João César das Neves ou um discurso de Passos Coelho.
Eu comecei verdadeiramente a interessar-me por Teologia quando fiz a cadeira de Filosofia Medieval. Um dos problemas teológicos que mais me inquietavam era o do Espírito Santo, uma das pessoas da Trindade. Eu entendia o Pai, eu entendia o Filho, mas ao Espírito Santo ofereci sempre uma enorme resistência intelectual. Tivesse eu visto, nesse tempo, este homem dedicado àquelas hieroglíficas folhas musicais, e talvez não precisasse de tanto tempo para intuir a presença do Espírito Santo pairando sobre as águas.