22 abril, 2014

ABRIL, ÁGUAS MIL


Deus me proteja de ser acusado de anti-benfiquismo ou de porem em causa o meu amor ao Benfica. Mas dei comigo a pensar que para um clube como o Benfica esperar três anos para ganhar um título é muito mais gratificante do que ganhar tris, tetras ou pentas. O Benfica está para o futebol português como o Barca Velha para os vinhos. E do mesmo modo que aquelas sagradas uvas só em alguns anos se transformam em néctar dos deuses, também o Benfica não necessita de ganhar títulos para mostrar o seu valor, a sua grandeza, a sua superioridade. Isso é para novos-ricos como o FCP. O Benfica é um verdadeiro aristocrata, que pode andar com os sapatos remendados e ter em casa os cortinados puídos e os tapetes a esfarraparem-se, mas continua a ser aquilo é. Já o FCP precisa de títulos para se sentir vivo e manter a sua identidade burguesa. O FCP sem ganhar um campeonato fica ao nível de um Vitória de Guimarães ou de um Braga, daí precisar disso como de pão para a boca, precisar de ganhar para provar a sua grandeza que será sempre uma grandeza relativa.
Mas dir-me-ão que o facto de o Benfica não precisar de títulos para sustentar a sua absoluta grandeza, não implica que a ausência de títulos a enfraqueça. Logo, mais vale conquistá-los do que perdê-los, sendo por isso um disparate o que estou para aqui a dizer. Sim, é verdade. Nada retira grandeza ao Benfica, muito menos ganhar títulos. Por isso, aparentemente, mais vale ser grande com títulos do que grande sem eles. Como se a necessidade de títulos surgisse aqui como uma espécie de argumento ontológico para provar a grandeza do Benfica.
No século XI, numa obra chamada Proslogion, Santo Anselmo defendeu, de um modo conceptualmente engenhoso, a impossibilidade de Deus não existir. Deus é um ser maior do que o qual nada se pode pensar. Ora, havendo coisas que podem ser pensadas sem existirem, Deus não pode ser uma delas. Deus é um ser que é pensado e que sendo pensado não pode não existir. Porquê? Porque se pensarmos que não existe aquilo maior do que o qual nada se pode pensar, aquilo maior do que o qual nada se pode pensar já não é aquilo maior do que o qual nada se pode pensar.
Ora, pensarão muitos benfiquistas que o SLB será uma realidade cuja perfeição será maior com títulos do que sem títulos, sendo estes, por isso, uma espécie de legitimação ontológica da superior grandeza do SLB. Acontece que o SLB não é um conceito abstracto como o de Deus, e a grandeza do SLB não é uma grandeza ontológica mas uma grandeza existencial que decorre de múltiplos factores. Um clube não é perfeito, tal como um país não é perfeito, um género literário não é perfeito, um ser humano não é perfeito.
Esclarecido este ponto, por que motivo defendo então que ganhar títulos espaçadamente é melhor do que ganhar tris, tetras ou pentas? Tem a ver com uma sábia gestão da relação entre duração e instante. Um pessimista platónico dirá que, tal como o próprio mundo ou o corpo, a festa de um golo, de uma vitória, de um título, são meras ilusões que, como a espuma do mar na areia, se escoam com uma dramática rapidez. Não vale a pena por isso festejar o que rapidamente deixa de fazer sentido festejar. Nós festejamos um golo e rapidamente o golo desaparece. Trata-se de uma alegria ínfima, devorada pela implacável fúria de Cronos que nos engole. A corrosiva acidez do tempo tudo destrói e um golo, uma vitória ou um título não são excepções. Talvez por isso os locutores de rádio ao relatarem um jogo gritem «Goooooooooooooooolo» até já não poderem mais. Como se estivessem desesperadamente a fazer respiração boca a boca ao golo para não o deixar morrer e prendê-lo às correntes da eternidade. Até que o fôlego acaba e o golo morre de vez. E alguém festeja hoje o título de 1987, de 1993, de 2004? Ninguém, alegrias mortas, apenas lembradas. Um dia depois da emoção, ainda se tem o sabor dela, como de um café que se tomou há 15 minutos. Mas uma semana depois, o sabor já é mais fraco. Após um ano, resta apenas uma ideia feita de cinzas. Pensar numa emoção passada é como pensar na emoção de outra pessoa. Percebemos a sua alegria ou dor, mas não sentimos a sua alegria ou dor. Também quando um portista, sportinguista ou benfiquista pensa numa alegria passada, já não sente a alegria passada, tem apenas a memória de uma alegria passada, a qual já não é alegria, uma vez que a alegria só existe se sentida, nunca se meramente pensada. Filósofos há que, por causa desta angústia da mudança e da morte, decidem voltar costas às coisas mundanas e agarram-se a Deus, ao Absoluto, a qualquer coisa que impeça que o tecido da vida seja corroído pela traça do tempo.
Mas um optimista pensará de outra maneira. Pensa que, embora um instante seja um instante, é também uma expressão da eternidade. A alegria de Coluna em 1967 é a alegria de Luisão em 2014. A alegria é sempre a mesma, os rostos são sempre os mesmos. Tal como os rostos de Cristo e de Madre Teresa de Calcutá, os rostos de Mário Coluna e de Luisão estão fundidos num único rosto: o rosto da alegria. A alegria de um minuto, mas que é reproduzida ao longo de séculos por todos aqueles que exprimem sempre o mesmo rosto da alegria.
O que nos dizem filósofos da imanência como Espinosa, Hegel ou Nietzsche, em rota de colisão com os filósofos da transcendência? Que o absoluto não existe fora da vida, do tempo, da natureza, da história. Para estes filósofos, os golos de Eusébio ou os golos de Lima estão longe de serem meros instantes reduzidos a pó. São expressões concretas e temporais da própria eternidade. Espinosa, o filósofo da alegria, foi mesmo o melhor a perceber como a vida se expande, sempre que o instante do golo se funde com a solidez da eternidade. E que o amor pelo instante pode ser uma marca do amor pelo que é eterno.
Quando um adepto do Benfica grita “Golo!” no instante em que Lima marca ao Olhanense, grita o mesmo grito do adepto portista que vê Ricardo Quaresma marcar um golo ao Nápoles. Ou do adepto que grita num qualquer jogo dos regionais, ou do grito da criança moçambicana que hoje joga descalça com uma bola de trapos, e que é o mesmo grito de Eusébio numa final da Taça dos Campeões em plenos anos 60, perante um estádio europeu cheio de holofotes, jornalistas e espectadores. O golo é sempre o mesmo, é sempre a mesma bola que atravessa a linha de baliza. Daí percebermos, sempre que nos alegramos, que o tempo não tem só traças que roem os tecidos da vida. Seja por um golo, por uma boa notícia, pela música dos Penguin Cafe Orchestra ou por uma manhã de Primavera.
Mas a repetição é amiga do dever, de uma ordem estabelecida, nunca da festa. A repetição da festa é uma repetição cíclica, não uma repetição monótona, previsível. A verdadeira festa exige o seu fim, o seu esquecimento para poder regressar com toda a sua pujança e espontânea. Querer que alguém ganhe por rotina é como estar a exigir a alguém que seja espontâneo, dizer-lhe "- Sê espontâneo!", um óbvio paradoxo sem qualquer sentido.
Um pobre adepto portista poderia sentir-se feliz por ver o seu clube ganhar todas as épocas. Tal acontece porque o seu deslumbramento pelo título está condicionado pela sua grandeza relativa. Ora, com um adepto benfiquista nada disso é preciso. O Benfica precisa de descansar da festa para melhor viver a festa, sem que deixe de estar latentemente em festa pois ser do Benfica já é uma festa. 
Este ano, muito em breve iremos deixar de festejar. Não tarda e já estamos a pensar em quem irá festejar na próxima época. Eis a perversidade do tempo no seu esplendor. Se ganhar o Benfica, não é grave, festejemos então, pois dois campeonatos seguidos aguentam-se bem. Mas convém não exagerar. Se ganhar o FCP (não admito a hipótese de ser o Sporting a ganhar), parabéns. Deixemo-los viver essa ilusão de grandeza enquanto nós assistimos, impávidos e serenos, sob a luz cristalina de um Olimpo onde podem morrer andorinhas mas onde é sempre Primavera cujos dias iniciais são inexoravelmente inteiros e limpos.