14 março, 2014

VIVISSECÇÃO

Arquivo Bettmann/Corbis |1956

Lembro-me  tão bem de ouvir Hugo Chavez a dizer, com uma felicidade bíblica, estar certo de que iria fintar o cancro. E aqueles treinadores de futebol que falam dos jogos que vão ganhar antes de os perderem? Ou os políticos que nos seus discursos de campanha eleitoral não escondem a confiança na vitória antes da derrota nas urnas dias depois? Acho normal e até desejável esse tipo de certezas em situações de incerteza. Um wishful thinking pode ser falível, ilusório, idealista, parvo, mas dá força e alimenta a esperança.
Mas um parvo wishful thinking na boca de um cidadão comum não é a mesma coisa do que na boca de certos políticos. Porque para além de serem tão parvos como os outros são igualmente perigosos. Quando certos políticos fazem política a partir de wishful thinkings isso pode querer dizer que não é ele que vai na direcção da realidade mas a realidade que terá de vir na sua direcção.
Num pequeno texto (Chaim Weizmann's Leadership) sobre Chaim Weizmann, primeiro presidente de Israel e de quem era amigo pessoal, Isaiah Berlin distingue dois tipos de grandeza política. Uma delas é feita de um "idealismo ao rubro", por vezes fanático, em homens tornados muitas vezes heróis lendários e que hipersimplificam a vida através de rígidas dicotomias. E que em vez de desfazerem cuidadosamente os nós, cortam-nos com um só golpe. A outra é protagonizada por pessoas comuns que assumem a "complexidade infinita da vida", atentas aos "mais pequenos fragmentos que a compõem", ao "momento oportuno", pessoas que mantêm o sentido das proporções, e que agem mais com base na intuição e pensamento semi-instintivo do que num programa racionalmente fundamentado, seja cientificamente, seja metafisicamente. Não são políticos excessivos, fanáticos, salvadores, heróis, mas políticoss irónicos e cépticos, resultando daí a sua grandeza.
Chavez não conhecia o movimento dos átomos cuja arbitrariedade faz da nossa vida um destino sempre imprevisível. Mas falava como conhecesse o seu destino, sendo a sua relação com a ideologia e o projecto político para o povo que pastoreava, tão clara e distinta como a relação que julgava ter com a sua doença.
Políticos fanáticos como Lenine, Estaline, Hitler, Salazar, Chavez, Sócrates ou Passos Coelho (portanto, num regime totalitário ou em democracia),  não podem falhar. Se a realidade mostra que falharam é porque a realidade ainda se está a adaptar ao seu pensamento, não é o seu pensamento que está desadequado à realidade. É por isso que prefiro políticos com paciência para desfazer os nós, fazendo depois frágeis mas eficazes laços, do que outros que, para atingirem os seus objectivos, desfazem os nós à machadada, levando a realidade à sua frente como um furacão.
Como diz o mesmo Berlin noutro sítio (Political Judgement) "tentam mudar os factos para os adaptar à teoria, o que, na prática, significa uma espécie de vivissecção das sociedades até que se transformem no que a teoria originalmente declarou que a experimentação iria provocar".
Infelizmente são políticos que, em democracia, apesar das derrotas que mais cedo ou mais tarde enfrentarão, nunca são viviseccionados mas apenas reciclados.