17 março, 2014

VÁ PELOS SEUS DEDOS

Gordon Parks |1955

Sentado ao piano, Schumann toca uma peça perante os ouvidos atentos de um aluno. Acaba de tocar e o aluno diz que não entendeu o que acabara de ouvir. O professor vira-se então de novo para o piano e... volta a tocar. Li em tempos uma entrevista de Pedro Burmester na qual referia a sua perplexidade com o facto de já ter visto num concerto, enquanto ele tocava, uma pessoa a ouvir a música com a pauta nas mãos. Não me espantaria que a vontade do pianista, no caso desse sábio melómano desejar falar com ele sobre a música que acabara de ouvir, fosse voltar novamente tocá-la.
A música, sobretudo a música erudita, tem por detrás uma construção complexa. Aprender música, estudar música, compor música e ouvir tecnicamente música são coisas de elevada complexidade, que implicam muito conhecimento, trabalho e a posse de faculdades cognitivas que estão longe de estarem igualmente distribuídas pelas pessoas. A fatia que me calhou foi, assumo sem vergonha, bastante modesta. Quando pesquiso sobre questões relacionadas com a parte técnica da música, sinto-me sempre como um estudante de Literatura que fosse parar de repente a uma aula de Mecânica Quântica. Na música há mesmo coisas das quais já desisti de tentar compreender. Tenho a consciência de que nasci apenas para a ouvir.
Mas não deixa de ser interessante a relação entre as dimensões técnica e estética da música, relação, mais do que íntima, verdadeiramente intrínseca. Uma relação que, no fundo, é da mesma ordem daquela do edifício que se aprecia esteticamente, mas o qual não seria possível sem todo um complexo conjunto de elementos técnicos no campo da engenharia e da arquitectura. Mas quando apreciamos esteticamente estamos muito longe da consciência dos seus elementos técnicos, podendo mesmo dispensar o conhecimento deles.
Também a música não existe sem os seus elementos técnicos e pressupostos teóricos que a tornam possível. Mas até que ponto precisamos deles para entender verdadeiramente a música? Precisamos tanto deles como de saber a componente química subjacente ao aroma de uma rosa para a apreciar. Ou de conhecer o processo de fabricação de um perfume para haver um prazer olfactivo quando se deita umas gotas nos pulsos e no pescoço. Ou de perceber os mecanismos endócrinos e neurológicos de um orgasmo para dele usufruir. Ou saber gramática para poder apreciar um poema. Não precisamos do estrume para compreender a flor, ainda que a flor dependa dele para crescer. A beleza e o perfume da flor estão num plano quase axiomático. Ora, o mesmo se passa com a música.
Explicar é estabelecer um encadeamento entre vários elementos em que a evidência de um deriva da evidência de outro que, por sua vez, deriva da evidência de outro. X é X PORQUE Y que, por sua vez, é Y PORQUE Z. X não se explica por si próprio, a sua evidência não é autónoma, precisando por isso de recorrer a Y. Uma pessoa está com gripe. Porquê? Porque foi provocada por um vírus. Só que a música não existe para ser compreendida mas ouvida. A sua essência é ser ouvida ainda que o que a torna possível seja passível de ser compreendido. Esteticamente, basta-se por isso a si própria enquanto conjunto de sons sequencialmente produzidos. Daí que demonstrar esteticamente a música seja tão absurdo como uma pessoa aqui a meu lado me pedir para eu demonstrar que estou neste momento com os dedos sobre um teclado. Eu provo que estou com dedos no teclado com os dedos no teclado. O que faço então se a pessoa continuar a pedir-me para provar que estou com os dedos no teclado, pois pode estar a sonhar, ter enlouquecido ou deus tê-la feito de uma maneira em que se engane mesmo com com coisas que apareçam como óbvias e evidentes? Não sei como provar, a não ser continuar com os dedos no teclado, nada mais do que estar com os dedos no teclado. E não me sentirei estúpido ou intelectualmente inapto por não conseguir demonstrar melhor a não ser com os dedos no teclado.  Por isso, com a música, também não me sinto completamente estúpido quando me limito apenas a ouvi-la e a acreditar que foi precisamente para isso, sobretudo para isso, que ela foi composta, sem precisar de saber mais nada a seu respeito.