09 março, 2014

UM PEQUENO-ALMOÇO SOPERBO

John Loengard | O Olho de Brassaï, 1981

Ainda que não goste de envelhecer, por enquanto não senti a crise da idade média. Mas sei envelhecer e, nestas coisas, ao contrário de outras, a sabedoria pode ajudar. Não me sinto condenado a ser o que fui ou a ser o que não fui. Para condenações já bastam aquelas de que não podemos mesmo escapar. 
Talvez isso explique o facto de ontem, pela primeira vez na vida, ter comido sopa ao pequeno-almoço. Não o fiz para substituir o meu sagrado e indefectível sumo de laranja de há muitos anos, seja Verão ou Inverno, alterando, por razões doutamente programáticas, a minha dieta matinal. Tanto assim é que hoje regressei de novo ao sumo, que muitíssimo bem me soube. Não sei porque me apeteceu comer a sopa mas também não é coisa que me interesse saber. E como era sopa de espinafres que havia, foi sopa de espinafres que marchou. Houvesse sopa de agriões ou de nabiças ou de caldo verde ou de couve e seria essa que sairia do frigorífico rumo ao micro-ondas. 
Eu não sei se é estúpido ou ridículo comer sopa ao pequeno-almoço, não sei se há países onde haja a tradição de a comer ou se há países onde se seja preso, interrogado e condenado por comê-la. Não sei, não quero saber, nem preciso de saber. Só sei que o meu desejo de comer ontem sopa ao pequeno-almoço é equivalente ao meu desejo de ter hoje acordado sem ele.
Parece-me que aquela mistura de batata, grão, cebola, cenoura, alho francês e espinafres ao pequeno-almoço tem as suas vantagens. Saciei a minha fome e durante mais tempo do que é habitual na parte da manhã. Mas não fui ler nada sobre isso nem quero saber. Se me tivesse feito mal, perceberia que não deveria voltar a comer com o estômago vazio. Não me tendo feito mal, admito poder vir novamente a começar o dia com um prato de sopa.
Envelhecer nunca será bom. Mas envelhecer assim ajuda a não ser menos bom.