18 março, 2014

POR UM PUNHADO DE LIVROS

André Kértesz | Da série On Reading*

Na biblioteca da minha escola esteve hoje a passar um conjunto de diapositivos com frases sobre o acto de ler. Uma delas era a seguinte, respeitando eu aqui a sua subtileza cromática, embora aqui se perca o seu impacto devido ao fundo cinzento da página:

"LEIA MUITO. A LEITURA É O MELHOR ATALHO PARA DESENVOLVER A INTELIGÊNCIA".

A acompanhar a frase via-se um jovem sentado, a ler, sobre uma pilha enorme de livros. Não vou repetir o que disse aqui, até porque inteligência está longe de se confundir com o raciocínio lógico-matemático. Nem vou discutir tecnicamente a relação entre leitura e inteligência, nomeadamente saber se uma pessoa que lê 20 livros por ano é mais inteligente do que outra que só lê 10 e menos inteligente do que uma outra que lê 30 livros por ano.
Mas pretendo para a literatura o mesmo respeito que desejo para a música, impedindo-a de se prostituir como um meio para fins que nada têm que ver com os seus dignos e elevados propósitos relativos à vida do espírito, que se justificam por si próprios. 
Eu leio a frase e de imediato a achei sinistra, abjecta, sórdida. De tal modo que logo que o pude fazer não resisti a saber coisas sobre a criatura que a cuspiu para dentro das nossas mentes, um tal César Frazão. O nome não me dizia nada, pensando eu, pelo contexto, poder tratar-se de um qualquer escritor desconhecido, um professor, sei lá, um pedagogo. E como não faltam no mundo escritores, professores ou pedagogos cujo nível de estultícia chega a ser assustador, considerei a possibilidade absolutamente verosímil.
Quem é então César Frazão? Um técnico de vendas e conferencista na área da técnica de vendas, e que escreve livros como este. Posso por isso dizer que acabei por ficar feliz com a descoberta. Porquê? Porque a minha intuição por vezes está certa. Mal vi a frase percebi de imediato a pornográfica atrocidade que lhe está subjacente e toda a ideologia pragmática, funcional e utilitarista que se esconde por detrás de tão generoso objectivo: aumentar a inteligência. A sério: mal por mal prefiro aquele spam que por aí circula e que promete aumentar o tamanho do pénis, mesmo considerando, como dizem, que size doesn't matter. Agora, prometer desenvolver a inteligência à custa dos livros, jamais. Se um dia chegarmos a ler por causa disso e se for esse o discursos dos pais e dos professores para convencerem as criancinhas a ler, isso é sinal de que a verdadeira leitura, se não está já morta, está pelo menos moribunda.

* Ou crianças a tentarem desenvolver as suas inteligências.