05 março, 2014

O FOGO E AS CINZAS


Henri Cartier-Bresson | Alentejo, 1955

"Sometimes we can learn more of a past generation by reading the authors who were popular at the time and have now sunk without trace, rather than reperusing the immortals". A.N. Wilson, The Victorians

Quais os nomes da literatura portuguesa do século XX e actual que irão sobreviver? Pessoa, claro. Embora muitíssimo tentado a apostar o contrário, arrisco Saramago e Lobo Antunes só para não me dar ares de radical iconoclasta. Mas fico-me por aqui. Eu sei que não é fácil olharmos para alguns nomes sonantes da nossa literatura actual e aceitar o seu destino de augustos abelairas. Mas alguém da geração dos meus pais iria acreditar que Ferreira de Castro, Namora, Aquilino, Manuel da Fonseca, Redol ou Carlos de Oliveira, se iriam transformar em almas penadas, uivando lugubremente em prateleiras de bibliotecas tecnologicamente sofisticadas sem que ninguém as oiça? Alguém da minha geração imaginaria Vergílio Ferreira a deixar de ser lido? No entanto, há dezenas de escritores que faziam parte dos hábitos de leitura dos portugueses do século XX e que hoje estão completamente mortos. Mortos os escritores e mortos os leitores para quem esses escritores escreviam.
Mortos os escritores fisicamente, mortos os escritores literariamente, e até mortos os nomes dos escritores, que já nem sequer como meras etiquetas sem sentido existem. Quem, hoje, ouviu falar de Domingos Monteiro, Tomás Ribas, Leão Penedo, Mário Braga e tantos outros de segunda linha? Porém, a biblioteca do meu pai tinha livros deles e lembro-me bem de ir a outras casas e de dar com esses livros, pois faziam parte do cânone literário e cultural português de meados do século XX. São escritores que traduzem o Portugal daquele tempo, não só pelo que escrevem mas também pela leitura que deles é feita. Não é, pois, possível conhecer a consciência do Portugal desse tempo sem passar por esses fantasmas. Daí que ao usarmos os nomes principais da literatura para conhecermos a história, seja o romance (Eça), a poesia (Camões) ou a crónica (Fernão Lopes), estamos apenas a ir pelas principais auto-estradas, esquecendo, entretanto, inúmeros atalhos, sombrios e escondidos por entre cerrada vegetação, que nos poderiam levar directamente ao interior de uma certa consciência que ficou soterrada nas catacumbas do tempo.
Por isso, quando se diz que através de Eça, Camões ou Fernão Lopes podemos conhecer o espírito de um passado, a consciência de um tempo, o Zeigeist, isso é apenas parcialmente verdadeiro. Primeiro, porque a consciência de Eça, Camões ou Fernão Lopes não é exactamente a consciência do seu tempo mas a consciência de Eça, de Camões ou de Fernão Lopes, do mesmo modo que a consciência de Saramago não é a consciência do tempo de Saramago mas a consciência do próprio Saramago. Segundo, porque embora podendo ser, de certo modo, a consciência do seu tempo, é apenas uma consciência institucionalizada, culturalmente canonizada, seja pela academia, pelos críticos, pelos lobbies ou pelo público de uma época, mas o seu público, criando a ilusão de uma verdadeira consciência do tempo. Podem ser bons aparelhos para radiografar tempos que passaram. Mas o tempo é feito de células mortas que, outrora, foram fonte de vida, de respirações, circulações sanguíneas e batimentos cardíacos que é nas segundas linhas culturais, ou até mesmo no jornalismo mais primário que podemos perscrutar. Para os quais não existem estetoscópios, deixando pois de se ouvir o seu coração.