12 março, 2014

FACE OCULTA

Loredana Nemes | Unal, Série Beyond, 2009 

Ontem calhou-me o privilégio de fazer uma substituição numa turma de 8ºano onde nunca tinha tido a felicidade de estar. Feitas as apresentações, uma criatura levanta o dedo para dizer, com estridente entusiasmo, que sou parecido com o Einstein. Confesso que a minha susceptibilidade teria sido menor não fosse o caso de já ser a quarta vez que me dizem que sou parecido com o Einstein. E embora concorde, felizmente para mim, e ainda mais para ela, que haja mais semelhança entre mim e o Einstein do que entre mim e a Scarlet Johansson, também é verdade que não há vez nenhuma em que eu olhe para o espelho e seja assaltado pela presença do eminente físico.
Mas quatro vezes são quatro vezes. Não é uma, nem duas, nem três. E não posso ficar indiferente ao facto de haver quatro criaturas, em momentos diferentes, a olharem para mim e a acharem que sou parecido com o Einstein. E se o disseram, se abriram a boca para o dizer com tanto entusiasmo, sem me conhecerem de algum lado, é porque estariam seguros da semelhança.
A primeira vez que me compararam assim a alguém conhecido foi no Algarve, era eu adolescente. Duas inglesas garantiam-me que eu era a cara chapada do Sebastian Coe. Acontece que eu não fazia ideia de quem era o Sebastian Coe. Na altura não havia Internet e eu não tinha a possibilidade de poder descobrir o meu sósia. Naquela idade, tão importante na formação da identidade e da consciência da identidade, a comparação marcou-me. Sebastian Coe passou a ser um fantasma que me perseguia. Eu conhecia o meu rosto de me ver ao espelho mas não podia ver o meu rosto que os outros viam. Saber que era parecido com o Sebastien Coe, fosse lá quem fosse a personagem, era ficar a saber que havia alguém que se eu visse me permitiria ver o que os outros viam quando olhavam para mim. Hoje, fico indiferente quando me dizem que sou parecido com o Einstein. Se me dissessem que sou parecido com Cavaco Silva ou com o Jorge Jesus, não iria perceber mas iria ficar igualmente indiferente. Quero lá saber, é a última coisa na vida que me preocupa, desde que não me venham dizer que sou parecido com o engenheiro Mira Amaral. Mas na altura, pronto, aquilo mexeu comigo.
Quando tempos depois acabei finalmente por ver Sebastian Coe, não me lembro se num jornal, revista ou televisão, ia-me dando uma coisa. Aquele rosto era o meu rosto? Não vou dizer que desenvolvi esquizofrenia por causa disso mas lembro-me perfeitamente de me sentir desorientado a respeito da minha verdadeira identidade física. Olhar para o atleta britânico e ver a ver-me foi assim tão desconcertante como quando ouvimos a nossa voz gravada: aquele não posso ser eu.
Passaram entretanto muitos e muitos anos até voltarem a comparar-me com alguém. Há meia dúzia de anos disseram-me que eu fazia lembrar o Nuno Rogeiro. Para além do cabelo comprido, a única coisa que eu sabia ter em comum com ele é o facto de ambos termos gostado de Rock Progressivo na juventude. Foi por isso com surpresa que registei a semelhança embora já com a mesma indiferença com que reagi à semelhança com o físico alemão com ar de avôzinho bem disposto.
As minhas putativas semelhanças com as três pessoas não teriam chegado aqui, não fosse o caso de ter acontecido o seguinte nessa mesma aula de substituição. Andava eu a circular pelas carteiras quando, ao passar por uma, há uma garota que me diz que a mãe andou comigo na escola. Eu perguntei quem era a mãe, ela lá disse, e eu lá confirmei que sim, que sei quem é a mãe e quem é o pai. E já que entrámos neste registo mais pessoal, resolvi mostrar um pouco de boa vontade. Olhei bem para ela, assim como um aluno de Belas-Artes olha para um rosto que vai ter de reproduzir e arrisco: "É mais parecida com o seu pai do que com a sua mãe, não é?" Disse-me então muito calmamente que não podia sê-lo uma vez que era filha adoptiva. Sem dar parte fraca, insisti: "ok, mas a ser parecida com um deles, será mais com o seu pai do que com a sua mãe". Ela disse que sim mas claramente nada convencida do disparate que estava a ouvir.
Ainda cheguei a pensar recorrer ao conceito de semelhança de família, apresentado por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas para jogar com as múltiplas possibilidades de relação entre rostos tão distintos. Mas não é coisa que agora me apeteça. Basta-me saber que não sou parecido com o engenheiro Mira Amaral. Neste caso, ao contrário do que aconteceria com a Scarlet Johansson, e modéstia à parte, felizmente apenas para mim.