26 março, 2014

EXTREMA DIREITA

William Klein, NY, 1954

Um dia estava eu na secção de livros da FNAC a folhear livros, quando, de repente toca um telemóvel e uma criatura, comodamente sentada num sofá, começa a falar num tom que que me levou a pensar que o seu interlocutor estaria numa barulhenta viagem de metropolitano algures em Sydney ou Tóquio. Tratava-se de comentar um jogo de futebol da véspera: treinador isto, jogadores aquilo, mais o árbitro e outras angústias futebolísticas, enquanto os leitores, sossegados nos sofás, olhavam uns para os outros, partilhando a indignação. Entretanto, vendo que o homem teimava em não se calar, mudei de secção, tendo depois reparado que dois ou três leitores mudaram de sofá para se protegerem da corrosiva verborreia do indesejável vizinho.
Ora, eu sou um tipo calmo, daqueles que não faz mal a uma mosca. Abomino todos os géneros de violência e de comportamentos agressivos que façam um ser humano assemelhar-se a um animal com menos de metade do nosso córtex cerebral. Para além disso, aceito muito bem formas de vida, de pensar e de sentir que se afastam das minhas desde que respeitem os limites razoáveis da dignidade humana.
Porém, naquela situação, fui anormalmente surpreendido pelo sádico prazer de imaginar aquela criatura a cair para o lado com um ataque cardíaco ou a ser atropelado por um camião TIR. Aceito pacificamente que um indivíduo possa estar horas a discutir qualquer coisa que faça vagamente lembrar vida inteligente e cuja vida mental esteja reduzida àqueles programas de televisão onde se vê 58 vezes o mesmo lance para discutir se foi bola na mão ou mão na bola. O problema é quando esse indivíduo, que pode ser uma jóia de pessoa (este até tinha ar de avôzinho simpático), e ainda que involuntariamente e sem má fé, me obriga a viver coisas que eu não quero viver, anulando o meu mundo e de todos os outros que contam estar sossegados a ler num sítio onde é suposto poder fazê-lo. E quando isso acontece, posso deixar de ser o que sou para me tornar num outro com o qual estava longe de me identificar. Um outro em que tornei de um modo ad hoc e não por respeito a um projecto de vida marcado pelo fanatismo, a uma ideologia, a uma rejeição social que defendo de um modo intencional e fundamentado. Eu não sou aquilo, mas a força da realidade tornou-me naquilo
Por outro lado, aquele indivíduo, que todos nós ali sabíamos ser o intruso, acabou por adquirir poder sobre nós. Nós, os outros, os leitores, éramos a maioria e estávamos no nosso território a fazer o que é suposto fazer nele. O que faltou ali? Um funcionário que, zelando pelo interesse da maioria e com a autoridade que lhe compete, impusesse a normalidade do lugar. Não se trata de proibir um cidadão de gostar de futebol, de ir ao futebol, de ouvir relatos de futebol, de ter um poster com a equipa do Benfica ou do Sporting na sala de estar, entre a Última Ceia e o "Menino da Lágrima," e muito menos de o impedir de estar horas ao telefone a falar de futebol. Trata-se, sim, de o fazer segundo regras e compreender que, enquanto minoria, num sítio onde ninguém o obrigou a estar, terá mesmo de se submeter à vontade da maioria. Tivesse sido assim e eu agora não estaria a falar sobre isto. Todos nós teríamos continuado a ler sossegadamente e não me teria passado pela cabeça imaginar, com sádica volúpia, camiões TIR e ataques cardíacos. Enfim, continuaria a ser a pessoa normal que prezo ser.
Também as pessoas que passam a votar na extrema direita não são sádicos psicopatas que sonham com câmaras de gás e valas comuns para as quais se atire parte da humanidade. São pessoas perfeitamente normais que apenas precisam de ser protegidas de si próprias. E é isso que precisa de ser feito. Diz hoje Viriato Soromenho Marques aqui que a pobreza pode levar ao extremismo. Pode. Mas não chega, até porque se pode ser rico e extremista e ser pobre e não ser extremista. E, no caso do nazismo, a sedução não foi apenas económica. Explorava os instintos mais básicos das pessoas, criando inimigos odiados onde antes apenas existiam pessoas diferentes de nós. São essas pessoas que também precisam de ser protegidas. Protegem-se todos, protegendo-se cada uma das partes. Sim, não somos perfeitos e há que nunca esquecer isso.